O último capítulo do Bons Sons 2026 encontrou finalmente o seu grande momento. Rita Redshoes, cabeça de cartaz desta última jornada, chegou ao palco Zeca Afonso em Cem Soldos com uma carreira construída entre canções, instrumentos, produção e uma inquietação artística que nunca pareceu disposta a ficar quieta.
A noite de verão já tinha tomado conta da aldeia quando a artista entrou em cena. E havia uma particularidade especial naquele concerto: era também a estreia ao vivo do universo que Rita Redshoes prepara para o seu próximo álbum, previsto para setembro. Um disco pensado como homenagem a mulheres autoras e compositoras portuguesas, dando às suas canções uma nova vida através do olhar de uma artista que conhece bem a importância de reinventar.
A atuação revelou essa vontade desde cedo. Rita não apareceu apenas como intérprete. O palco tornou-se espaço para mostrar a compositora, a produtora, a arranjadora e a multi-instrumentista que fazem parte da sua identidade artística. Cada camada parecia contribuir para um retrato mais completo de uma carreira que começou muito antes de Rita Redshoes existir enquanto nome artístico.
Em Cem Soldos, essa viagem encontrou um novo capítulo. “A Tua Trança”, primeiro avanço do próximo disco, trouxe consigo a escrita de Márcia e uma homenagem à força feminina. “Não É Normal”, escrito por Cláudia Pascoal, reforçou essa direção e mostrou que o futuro de Rita Redshoes passa também por criar pontes com outras mulheres da música portuguesa.
Mas o concerto não viveu apenas do que ainda está para chegar. Viveu também da memória de uma carreira que se estende por diferentes linguagens e territórios. A experiência acumulada como música, compositora e intérprete encontrou espaço numa atuação segura, elegante e profundamente pessoal.
O concerto viveu ainda das memorias do festival com a participação em palco de elementos do grupos de voluntário que suportam o festival nestes últimos anos.
O público recebeu a cabeça de cartaz com atenção e entusiasmo, percebendo que aquele não era apenas mais um concerto do alinhamento. Era um momento de passagem: entre aquilo que Rita Redshoes já construiu e aquilo que está prestes a revelar.
E talvez por isso a noite tenha tido uma dimensão particularmente simbólica.
Depois de quatro dias em que o Bons Sons voltou a provar que a música portuguesa não cabe numa só definição, Rita Redshoes protagonizou um dos grandes momentos da última jornada, num concerto que olhou simultaneamente para a memória e para aquilo que ainda está por chegar.
A artista que começou atrás de uma bateria e que, tantos anos depois, continua a encontrar novas formas de reinventar o seu próprio caminho.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


