Seara fechou o Bons Sons 2026 como quem semeia música para o futuro

Chegou finalmente o momento de fechar o livro do Bons Sons 2026. Depois de quatro capítulos de música, encontros e diferentes formas de olhar para a criação portuguesa, Seara teve a responsabilidade de subir ao palco pela última vez e transformar a despedida numa celebração daquilo que permanece.

O nome não podia ser mais apropriado. Uma seara é terreno onde algo cresce, ganha forma e se prepara para ser colhido. Seara, o projeto coletivo, parte precisamente dessa ideia: reunir diferentes gerações e deixar que a música de raiz portuguesa encontre novas possibilidades para continuar a crescer.

Em palco, essa ideia ganhou rostos e instrumentos. Amélia Muge, Daniel Pereira Cristo, Júlio Pereira, Manuel de Oliveira, Mário Gonçalves, Miguel Veras, Quiné Teles e Rão Kyao, sob direção artística de Hélder Costa, juntaram percursos muito diferentes num mesmo espaço, criando um encontro onde tradição e inovação deixaram de parecer conceitos opostos.

O resultado foi maior do que a soma das partes. Cada músico trouxe consigo uma história, uma linguagem e uma relação particular com a música portuguesa. Juntos, construíram uma atuação onde as cordas, as vozes e os diferentes timbres foram criando uma espécie de mapa sonoro do país.

Havia memória, mas não havia nostalgia excessiva. A tradição apareceu como matéria viva, pronta a ser transformada e reinterpretada. As melodias carregavam raízes profundas, enquanto os arranjos e a própria interação entre os músicos lhes davam uma dimensão contemporânea.

Depois de quatro dias de concertos, a plateia que permaneceu em Cem Soldos para o último momento parecia saber que estava perante algo mais do que uma despedida. Era também uma passagem de testemunho.

Seara já tinha mostrado a força deste conceito na sua apresentação no final de 2025, no Theatro Circo, integrada no encerramento da Braga 25. No Bons Sons, encontrou um cenário diferente, mas uma mesma ideia: juntar vozes, gerações e experiências para perceber até onde pode chegar a música portuguesa quando não se fecha sobre si própria.

E talvez tenha sido precisamente essa a melhor forma de terminar o festival.

Não com um ponto final absoluto, mas com uma ideia de continuidade.

Ao longo de quatro dias, Cem Soldos foi sendo semeado de canções. Seara chegou no fim para lembrar que algumas delas ficam, criam raízes e continuam a crescer muito depois de os palcos ficarem vazios.

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🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

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