O quarto e último episódio do Bons Sons 2026 ainda tinha muito para acontecer quando Cremalheira do Apocalipse entrou em cena e decidiu que os instrumentos tradicionais não eram suficientes. Vindos de Rio Tinto e ligados ao Centro Social de Soutelo, o coletivo levou a Cem Soldos uma atuação onde o inesperado deixou de ser exceção para passar a ser regra.
Guitarras, teclados e bateria dividiram espaço com bidons, baldes, latas, pratos, garrafas e até penicos. Objetos que normalmente encontrariam outro destino ganharam uma segunda vida nas mãos do grupo, transformados em elementos de uma sonoridade tão crua quanto difícil de catalogar.
Entre o punk, o rock e o indie, a música avançava sem pedir autorização para respeitar fronteiras. Havia peso, havia ruído, havia melodias e havia sobretudo uma sensação de liberdade que tornava impossível prever o que surgiria a seguir.
Essa imprevisibilidade fazia parte do encanto. Cremalheira do Apocalipse não apresentou um concerto perfeitamente domesticado: apresentou um organismo coletivo, com uma formação alargada e dinâmica que pode reunir cerca de 16 elementos. Cada presença acrescentava uma nova camada a um espetáculo construído de forma orgânica.
As letras seguiram a mesma lógica. Ácidas, irónicas e por vezes quase proféticas, funcionaram como pequenas provocações lançadas contra a rotina. A banda não parece interessada em tornar o mundo mais confortável; prefere agitá-lo, desmontá-lo e voltar a montá-lo com aquilo que estiver à mão.
Mas por detrás desta liberdade existe também uma dimensão profundamente humana. Nascido no contexto do Centro Social de Soutelo, o projeto utiliza a criação artística como espaço de inclusão, ocupação e reintegração. A música torna-se assim muito mais do que um resultado final: é também um processo construído em conjunto.
Essa natureza coletiva sentiu-se em palco. Havia intensidade, mas também uma espontaneidade difícil de fabricar. Os músicos pareciam alimentar-se mutuamente e transformar cada objeto, cada batida e cada grito numa peça de uma mesma engrenagem.
Cremalheira do Apocalipse mostrou que a música também pode nascer de um balde, de um bidon ou de um penico, desde que exista vontade de fazer barulho, até o fim do mundo pode ter ritmo.
__________________________________________________________________________________________________________________________
🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


