No fim da tarde o MEO Kalorama 2026 entrou num território completamente inesperado com Angine de Poitrine. O duo canadiano, originário de Saguenay, no Quebec, trouxe ao festival uma mistura desconcertante de math rock e experimentação sonora, onde a música e o absurdo caminharam lado a lado.
Formados em 2019, os Angine de Poitrine construíram uma identidade que dificilmente se confunde com outra. As composições instrumentais exploram ritmos assimétricos, microtonalidade e estruturas que parecem desafiar constantemente aquilo que o ouvido espera encontrar.
Mas antes mesmo de a música começar, havia algo impossível de ignorar.
As máscaras gigantes de papel machê e os fatos de padrão preto e branco transformaram os dois músicos em personagens vindos de algum universo paralelo. O anonimato absoluto faz parte do conceito e acrescenta ainda mais mistério a uma atuação que já vive naturalmente do inesperado.
Em palco, Khn de Poitrine construiu as guitarras e baixos através de camadas sucessivas, utilizando looping para sobrepor diferentes elementos em tempo real. Ao seu lado, Klek de Poitrine manteve a bateria num registo seco e preciso, criando uma base rítmica quase mecânica.
O resultado foi estranhamente hipnótico.
Os Angine de Poitrine não procuram melodias fáceis nem caminhos previsíveis. A música desenvolve-se através de pequenos motivos que se transformam, repetem e desaparecem, criando uma espécie de movimento contínuo.
A atuação transformou o palco do MEO Kalorama num espaço onde o público nunca sabia exatamente o que iria acontecer a seguir. Entre ritmos matemáticos, sons dissonantes e uma estética deliberadamente surrealista, o duo canadiano construiu uma experiência tão musical quanto visual.
Há também uma certa ironia na forma como apresentam o próprio universo. Os Angine de Poitrine assumem-se como “exploradores do espaço-tempo” e tratam a sua música como uma espécie de rock de arena feito de cartão.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


