A noite do terceiro dia do Bons Sons 2026 ganhou outra pulsação quando os Cacique’97 chegaram ao palco. O coletivo luso-moçambicano trouxe consigo uma linguagem musical construída entre continentes, décadas e tradições, transformando Cem Soldos num espaço onde ninguém parecia disposto a ficar parado.
Reconhecidos como pioneiros do afrobeat em Portugal, os Cacique’97 partiram da matriz rítmica criada na Nigéria para a cruzar com funk, reggae e diferentes sonoridades vindas dos países lusófonos e do Brasil. Em palco, essa mistura não surgiu como uma fórmula fechada, mas como matéria viva, constantemente alimentada pela energia dos músicos.
A banda construiu o concerto através de camadas. Os ritmos foram ocupando o espaço, os metais acrescentaram intensidade e a secção rítmica manteve tudo em permanente movimento. Havia uma sensação de viagem, mas sem necessidade de sair de Cem Soldos: cada mudança sonora parecia abrir uma nova janela para outro lugar.
Mas por detrás da celebração existe também uma dimensão de intervenção que faz parte da identidade do coletivo. A dança nunca apareceu desligada da realidade. As suas canções carregam comentários, inquietações e diferentes formas de olhar para o mundo, provando que uma música pode fazer mexer o corpo enquanto provoca pensamento.
Essa combinação entre consciência e festa tornou-se uma das imagens mais fortes do concerto. O afrobeat funcionou como ponto de partida, mas o destino foi muito mais amplo: um território onde África, Portugal, Brasil e outras geografias musicais se encontraram através do ritmo.
À medida que a noite avançava, a energia do palco parecia contagiar todo o recinto. Cem Soldos transformou-se numa enorme pista ao ar livre, com o público entregue a uma banda que conhece bem a arte de transformar groove em comunhão.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


