Mordo Mia levaram o Bons Sons 2026 para o lado mais estranho da noite

Quando o terceiro dia do Bons Sons 2026 já se encontrava mergulhado na noite, Mordo Mia chegaram a Cem Soldos para baralhar certezas. Vindos do underground lisboeta, o grupo apresentou um concerto difícil de catalogar e ainda mais difícil de ignorar, onde o rock experimental encontrou o no-wave, o punk, o soul e o jazz num encontro deliberadamente imprevisível.

Desde os primeiros momentos, percebeu-se que a banda não estava interessada em seguir uma linha reta. As guitarras, o baixo, a bateria e o violino foram criando diferentes tensões, enquanto a voz e as letras acrescentavam uma dimensão teatral e irónica à atuação. Havia sempre qualquer coisa prestes a acontecer — e essa sensação manteve o público atento.

Mordo Mia parecem encontrar precisamente no desconforto um espaço de criação. As canções avançavam, recuavam, aceleravam e mudavam de direção, como se cada tema tivesse vontade própria. Em vez de procurar tornar tudo imediatamente acessível, a banda deixou que o público entrasse no seu universo ao seu próprio ritmo.

A presença em palco foi essencial para essa experiência. A componente teatral não funcionou como mero adorno: fazia parte da própria linguagem do grupo, reforçando o lado provocador das canções e criando momentos em que a música parecia quase transformar-se numa pequena peça de teatro.

A mistura de géneros também ganhou uma dimensão particular. O peso do punk podia surgir ao lado de uma passagem mais próxima do soul, enquanto o jazz e a experimentação abriam espaço para momentos menos previsíveis.

Em Cem Soldos, Mordo Mia encontrou um público disposto a deixar-se surpreender e foram construindo uma atuação que recusou a ideia de que um concerto precisa de ser confortável para ser memorável.

E talvez seja precisamente aí que reside a força desta banda: não tentar agradar a todos, mas criar um lugar próprio e convidar quem quiser a entrar.

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🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

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