Depois de um terceiro dia que já tinha passado por diferentes formas de entender a música portuguesa de intervenção, Luta Livre chegou ao Bons Sons 2026 para acrescentar uma dose de confronto, pensamento e irreverência. Por detrás do projeto está Luís Varatojo, músico com um percurso incontornável na música portuguesa e fundador de nomes como Peste & Sida e A Naifa, que encontrou neste formato a solo uma nova forma de dizer aquilo que não pode ficar por dizer.
Em Cem Soldos, a música apareceu como instrumento de intervenção. O fado encontrou o rap, o reggae cruzou-se com a eletrónica e diferentes linguagens foram colocadas lado a lado sem preocupação em obedecer a fronteiras. O resultado foi uma atuação tão eclética quanto consciente, onde cada mudança sonora parecia abrir uma nova possibilidade.
A experiência de Varatojo tornou-se evidente na forma como conduziu o concerto. Havia segurança, mas também uma vontade clara de provocar reflexão. As canções não surgiam apenas para entreter: carregavam comentários sobre a sociedade, o quotidiano e as contradições do mundo à nossa volta.
O público recebeu essa mistura com curiosidade e atenção. Entre momentos mais dançáveis e outros em que as palavras assumiam todo o protagonismo, Luta Livre conseguiu manter a plateia ligada a uma atuação que nunca se deixou prender por uma única fórmula.
O percurso do projeto também se fez sentir. Depois de “Técnicas de Combate”, editado em 2021, “Defesa Pessoal”, de 2023, e “Contrafação”, lançado em 2025, Luta Livre chega a Bons Sons com um universo já suficientemente consolidado para saber onde quer atacar — e onde quer deixar a pergunta.
E talvez seja essa a verdadeira força do projeto: transformar diferentes géneros musicais numa espécie de campo de batalha criativo, onde a palavra pode ser tão contundente como qualquer batida.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


