Red Bull Music Culture Clash… Uma noite em cheio…. – Glam Magazine

Red Bull Music Culture Clash… Uma noite em cheio….

Energia no máximo, vibração no máximo, ânimo no máximo, entrega no máximo: 21:30 e parece que a maior concentração de volts e décibeis e adrenalina do planeta se encontra no centro da arena do Coliseu dos Recreios que recebe assim a segunda edição do Red Bull Music Culture Clash. Há 4 palcos devidamente equipados para 4 crews em busca de uma vitória. Alex D’Alva Teixeira, no centro da área plus que hoje está carregado de público, começa por clarificar as regras do jogo, apontando ao microfone suspenso sobre a arena que irá medir a intensidade do apoio a cada uma das crews. A marca de 118.8 dBs é a prova de que ninguém está aqui para brincadeiras e todos estão dispostos a dar o litro para que a noite seja perfeita. Logo de seguida, no camarote presidencial, Carlão lança mais agitação sobre as hostes.

E o confronto de culturas arranca!

Capicua + Guerrilha Cor de Rosa com máscaras de combate, Paus + Pedras com ar de poucos amigos, Richie Campbell apresenta Bridgetown qual exército urbano e Rui Pregal da Cunha apresenta Ultramar de kilts para o que der e vier. Nunca se viu nada assim. E certamente nunca se ouviu nada assim. Tudo pronto?

Capicua chega-se à frente e dispara a direito para um primeiro round que serve de apresentação a cada uma das crews. Lantejoulas e camuflados, máscaras, rimas e batidas pesadas, com M7, Eva Rap Diva, Blaya, Ana Bacalhau e Marta Ren a deixarem claro que menina entra e com argumentos capazes de destruir a oposição. Lá atrás D-One faz o que lhe compete e dá ao colectivo um clássico de Boss Ac que deixa o Coliseu em ponto de rebuçado.

Senhores que se seguem? Paus + Pedras. E tudo indica que vai doer. Silk veste-se de fauno, meio homem, meio mito, completo animal de palco. Os Paus impõem peso com a bateria siamesa e Dj Glue a elevarem a pressão. Mike El Nite e Holly Hood fazem o resto numa primeira cartada muito forte. Será rock? Será trap? Coisa boa não é certamente e o Coliseu treme. Até o fantasma de Elis Regina é convocado: “é pau, é pedra, é o fim do caminho”. O princípio, na verdade.

Richie Campbell apresenta Bridgetown começa por repor os valores da essência, ouve-se “bad boys, bad boys, what you gonna do when we come for you?” e de repente o Coliseu está no meio de Kingston. Atrás de si, Dj Dadda, Ben Miranda, Plutónio, Dengaz, General Gogo, Mishlawi garantem que as crews da oposição “não valem nada”. E segue-se clássico, atrás de clássico, com a Bridgetown a dizer que não quer reinventar a roda.

A primeira surpresa vem com Rui Pregal da Cunha, sozinho em palco, sem músicos e um discurso que agita, que inspira, que instiga todos a fazerem o que quer que lhes possa ir na alma. E há teatro, improviso, provocação, humor desconcertante e diferença plena. Este Ultramar está afinal para lá de tudo, para lá dos Heróis do Mar, para lá das ideias feitas, para lá de tudo o que é convencional.

As Crews estão apresentadas. A partir deste round é que começa o processo de seleção a sério, com cada crew a pôr na mesa os seus principais argumentos porque m passo em falso pode sair caro.

Holly Hood entra a pés juntos e justifica o nome da crew: Paus + Pedras podem magoar a sério. Hip hop, kuduro, funk, James Brown em espírito. Richie Campbell e a sua Bridgetown responde, alterando a sintonia: há hip hop, Boss Ac, Dotorado Pro, Mishlawi a agarrar no microfone e a largar rimas como gente grande. E nem as muletas impedem Plutónio de se juntar à festa quando se dirigem as primeiras farpas a Blaya. Com os Capitão Fausto ao seu lado, Rui Pregal Cunha apresenta Ultramar recorrendo ao clássico “Amor” dos Heróis do Mar. Que ainda bate forte. O segundo round conclui-se com a Guerrilha Cor de Rosa a irem buscar Kendrick Lamar, rimas de combate, força feminina e uma chapa muito quente que leva a temperatura ao rubro. E há espaço para a força queer com a presença de Rebecca Bunny. Tá bonito!

Momento de votação e agora já conta: com mais de 122 dBs, Capicua + Guerrilha Cor de Rosa amealham aqui o primeiro ponto, mas a batalha ainda agora começou. E a adrenalina cresce para o terceiro round, em que as crews vão literalmente dormir com o inimigo, explorando os argumentos dos seus oponentes.

Richie Campbell apresenta Bridgetown traz Luís Franco Bastos a disparar em todas as direcções e sem ser nada meigo. E há espaço para dubplates carregados de humor, com Toy a ser convocado para mandar todos para o outro lado e Rui Veloso e os Xutos a juntarem-se à festa com recados feitos à medida da ocasião.

Rui Pregal traz os Memória de Peixe para o seu Ultramar feito de pedaços de reportório alheio, com passagens pelo cancioneiro das outras crews executados à guitarra e bateria e o veterano cantor a mostrar que isto do palco é como andar de bicicleta: não se esquece. “Paixão” dos Heróis escuta-se com novas roupagens e depois “cai neve em Vayorken”, Capicua e José Cid, tudo misturado. Bonito!

A Guerrilha reentra em palco com a voz de Sérgio Godinho a dar o mote e depois os Paus + Pedras inspiram uma deriva drum n’ bass pelo clássico “Águas de Março”, há vibes reggae com bailarinas em palco e uma visita carregada de humor a alguns clássicos dos Heróis do Mar: “a paixão garante ao fim, garantem”. Eva Rap Diva manda farpas acapella para todos. Tá duro.

Holly Hood é o primeiro a pegar em Paus + Pedras para atingir a concorrência. “Doidas, doidas andam as galinhas”, garante depois Mike El Nite. Ninguém está a brincar. Mesmo que se cante “that’s how we lol”. E as bocas não param, com “Vayorken” a inspirar farpas aguçadas. Os Da Weasel inspiram um dubplate que transporta recados até ao Ultramar. E há um “Caixão” para Rui Pregal em vez da “Paixão” do costume. Ui…

É quase meia noite e o Coliseu não podia estar mais quente nem que estivesse nos trópicos! Vencedor do terceiro round? Com mais de 121 decibeis, este ponto é conquistado por Paus + Pedras. Tudo em aberto para o último round, com 15 minutos de festa total e 2 pontos em jogo.

Rui Pregal da Cunha apresenta-se com Throes + Shine a darem balanço ao Ultramar e com Igor, voz dos Shine, atiram-se a uma longa e agitada versão de “Alegria”, mais um clássico dos Heróis. E há espaço para bailarinas clássicas e cantoras líricas vestidas de noiva. Extravagância é a palavra de ordem!

Capicua traz a sua Guerrilha para o palco ao som de Skepta. E enquanto os balões transparentes pulam por cima do público, num incrível espectáculo de cor, Blaya garante que estas mulheres são capazes de “stay up all night”. “Que Safoda” de Dj Télio serve para mandar mais amor para a concorrência e Herman José é convocado em dubplate, enquanto Camané vem em pessoa chamar o espírito de António Variações. Muito forte. E como se responde a Luís Franco Bastos? Com Bruno Nogueira a fazer rap? Confere! “Ladies na mesa, loucas na batalha”, garante Capicua.

Para os seus últimos 15 minutos, Paus + Pedra escolhem o clássico “Rhymeshit Que Abala” para entrarem em palco antes de se atirarem aos maiores clássicos dos Kussundulola com o mítico Janelo em palco. E até dá para Makoto Yagyu fazer crowdsurfing! Scuru Fitchadu coloca peso na equação. Convidada seguinte: Carla Moreira, voz de um clássico refrão dos Mind Da Gap – uma “Dedicatória” que o Coliseu cantou a uma voz. Holly Hood e Mike El Nite garantem o disparo dos últimos cartuchos e a prestação de Paus + Pedras é demolidora e coloca pressão na Bridgetown de Richie Campbell.

A resposta porém chega por via de um dubplate que também pega nos Kussundulola para devolver os mimos. Não tá fácil para ninguém. Dengaz dispara rimas rápidas e com Plutónio eleva o nome Bridgetown. A batalha ainda não está ganha para ninguém. Gson de Wet Bed Gang e Mayra Andrade são argumentos de peso, tal como o dubplate de Sam The Kid que atira farpas em todas as direcções. O final? Madredeus, com mais um dubplate que não facilita a vida a ninguém.

Quem ganha, afinal de contas? PAU e Pedras  ou Richie Campbell apresenta Bridgetown?

Os gritos da multidão decidem e são soberanos perante o sonómetro, por uma décima PAUS e Pedras ficaram acima dos 120 dBs, o que levou a uma celebração no Coliseu dos Recreios. No entanto, de acordo com o regulamento, a organização assume um empate técnico. Como explica Alex D’Alva Teixeira, quem venceu foi mesmo a música nacional. Como explica Alex D’Alva Teixeira , a música portuguesa também sai vitoriosa… Noite em cheio, recheada de emoções fortes e saudável e bem-humorado espírito de competição

photos: Hugo Silva

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