She Past Away… o culto pós‑punk em plena combustão hipnótica

Os She Past Away regressaram a Portugal com a solenidade sombria que lhes é característica, oferecendo um concerto que mais uma vez confirmou porque continuam a ser uma das bandas mais influentes da vaga darkwave e pós‑punk contemporânea. O duo turco não precisa de grandes discursos nem de artifícios cénicos: basta‑lhes a pulsação fria das máquinas, a guitarra cortante e a voz cavernosa de Volkan Caner para transformar a sala num templo de sombras.

Desde os primeiros segundos, a atmosfera ficou selada. Luzes mínimas, fumo denso e um público que parecia já estar em transe antes mesmo da primeira batida. Quando “Kasvetli Kutlama” irrompeu, a sala inteira moveu‑se como um único corpo — não em euforia, mas numa espécie de dança ritual, contida e magnética.

A força dos She Past Away ao vivo reside na repetição hipnótica: cada tema é uma espiral que se adensa, um mantra electrónico que convoca memórias de Bauhaus, The Cure ou Clan of Xymox, mas sempre com a identidade muito própria da banda. “Rituel”, “Asimilasyon” e “Durdu Dünya” foram recebidas como hinos, com o público a cantar cada palavra em turco como se fosse a sua língua materna — prova de que a música, quando é visceral, dispensa tradução.

A guitarra de Caner, seca e incisiva, funcionou como lâmina sobre a base electrónica de Doruk Öztürkcan, que manteve o concerto num pulso firme, quase militar. A estética minimalista reforçou a intensidade: nada distrai, nada desvia. É música para ser sentida no peito, na pele, no escuro.

O momento mais arrebatador chegou com “Katarsis”, que fez jus ao nome. A sala explodiu num movimento colectivo, libertando uma energia acumulada que parecia pairar desde o início. Já “Monoton” e “Bozbulanık” fecharam o concerto com a solenidade de um ritual final, deixando no ar aquela sensação de que o tempo ali dentro correu de forma diferente.

No fim, ficou claro que os She Past Away não dão apenas concertos — criam ambientes, estados de espírito, pequenas distorções emocionais. A sua música é uma viagem interior, um mergulho na melancolia dançável que define o pós‑punk moderno. E ao vivo, essa viagem torna‑se ainda mais intensa, física e inesquecível.

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🖋 Redação

📸 Elisa Neves

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