No dia 23 de janeiro, o Coliseu do Porto recebeu Gisela João para um concerto que reafirmou o seu estatuto como uma das intérpretes mais intensas e singulares do fado contemporâneo. A sala esgotada antecipava uma noite especial — e Gisela correspondeu com uma entrega que ultrapassou qualquer expectativa, tendo contado igualmente com um convidado muito especial, Samuel Úria e num concerto de mulher para mulheres, e não só, contou igualmente com a presença do Coro Comunitário de Mulheres Braga Fora.
Desde o momento em que pisou o palco, ficou claro que não seria apenas um concerto, mas uma partilha emocional em estado puro. A sua voz — quente, rasgada, luminosa — encheu o Coliseu do Porto com uma força que parecia vir de um lugar íntimo e ancestral. Gisela João canta como quem vive cada verso, e essa autenticidade é o que a distingue em palco.
O alinhamento percorreu temas como “Fado para esta noite”, “Acorda!” ou “Louca”, este último numa clara homenagem à emancipação da mulher como pessoa.
O público acompanhou cada momento com uma atenção quase reverente. Nos silêncios, sentia‑se a respiração suspensa; nos refrões mais emocionais, a sala transformava‑se num coro espontâneo, mas silencioso. Entre canções, Gisela João contou histórias, com humor, sinceridade e uma proximidade desarmante — criando a sensação de que o Coliseu inteiro era uma sala de estar partilhada entre todos.
Um dos momentos mais arrepiantes da noite surgiu com a presença do Coro Braga Fora com os temas “7 mulheres do minho”, “Meu amigo está longe” e “Por minha Sorte”, culminado com a presença em palco de Samuel Úria ao som de “Um dia depois”
Houve também espaço para as homenagens, primeiro com a recriação muito própria de “E Depois do Adeus” e depois uma revisitação à obra poética cantada de Zeca Afonso, com o encore a receber as intemporais “Canção de Embalar” e “Vampiros”.
Pelo meio e não menos importantes, temas como “Llorona” (em portunhol como referiu) e “Já não choro por ti”, caracterizaram da melhor forma a mensagem que Gisela transmitiu ao coliseu, mas sobretudo às mulheres, que tal como ela, vivem as emoções e os acontecimentos pessoais de forma intensa e absorvente.
No final, ficou claro que o concerto de Gisela João no Coliseu do Porto não foi apenas um concerto — foi um acontecimento. Uma noite de verdade absoluta, onde o fado se mostrou vivo, contemporâneo e profundamente humano, navegando igualmente ao som de um presente atual. Gisela João continua a ser uma força rara: uma artista que não interpreta apenas canções, mas vidas inteiras.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


