Samuel Úria levou a força da palavra ao segundo dia do Rock & Dão 2026

O segundo e último dia da primeira edição do Rock & Dão continuou a ganhar forma, quando Samuel Úria chegou ao palco em Viseu. Depois da energia dos GANSO, a tarde encontrou uma nova direção através de um dos autores mais singulares da música portuguesa contemporânea, num concerto onde as palavras assumiram novamente o centro da experiência.

Samuel Úria construiu ao longo dos anos um universo muito próprio, feito de canções onde a escrita ocupa um lugar tão importante quanto a música. Há humor, inquietação, fragilidade e observação do quotidiano, mas sobretudo uma capacidade particular para encontrar poesia em situações aparentemente comuns.

No Rock & Dão, essa dimensão encontrou um contexto especialmente interessante. Num festival dedicado ao rock e às suas diferentes ramificações, a presença de Samuel Úria mostrou que a força de uma canção também pode nascer daquilo que é dito, da forma como é dito e da relação que se estabelece entre o artista e quem está a ouvir.

As guitarras e a construção musical deram corpo a um repertório onde a voz e a palavra permanecem sempre em primeiro plano. Samuel Úria não precisa de transformar cada momento num espetáculo grandioso para prender a atenção. Existe uma proximidade natural na sua forma de interpretar, como se cada canção pudesse ser partilhada diretamente com quem está do outro lado.

À medida que o concerto avançava, o ambiente do Rock & Dão foi encontrando um novo equilíbrio. O público, que tinha regressado ao recinto para o segundo dia, passou da energia mais elétrica da abertura para uma escuta mais atenta, acompanhando as histórias e imagens que atravessam as canções.

Há também uma continuidade interessante entre Samuel Úria e a própria história recente da música independente portuguesa. A sua escrita ajudou a demonstrar que o português pode ser simultaneamente matéria de rock, de pop e de canção de autor, sem que seja necessário escolher apenas uma dessas possibilidades.

Em Viseu, essa liberdade encontrou um palco novo.

E talvez seja essa uma das melhores imagens para uma primeira edição: artistas com percursos diferentes a encontrarem-se num mesmo espaço e a mostrarem que o rock português nunca foi apenas uma questão de guitarras.

Também é feito de palavras.

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🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

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