Festival Appleton Garagem regressa para a 3ª edição em julho

De 8 a 29 de julho realiza-se a 3ª edição do festival Appleton Garagem, um ciclo de arte intermedia, que reúne artistas internacionais e portugueses, em três locais distintos da cidade de Lisboa: a Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique, e no Bairro de Alvalade o espaço Appleton Box e Appleton Square, bem como o terraço e o estaleiro de obras ambos na Rua do Centro Cultural.

Esta é a terceira edição de um festival que tem vindo a albergar várias expressões musicais, do campo do trabalho sonoro e de artes de âmbito instalativo ou performático, numa produção Appleton, com trabalho de programação desenhado por David Maranha e Manuel Mota.

 

O festival arranca no dia 8 de julho com Bernardo Devlin, figura particular na história moderna e pós-moderna da música portuguesa, é dos poucos que ousa questionar a canção e a sua estrutura, de uma multiplicidade de ângulos que façam justiça ao processo. Trabalhando métrica, melodia, harmonia, dicção ou enunciação, o seu passo é o da pergunta construtiva, nas suas capacidades brutalistas.

 

No dia 9 de julho, a Appleton – Associação Cultural, é apresentada a instalação sonora “Nightfalls at Ponto d’Orvalho – Notes on Resounding Memories” de AIRES (Vitor Bruno Pereira), artista que trabalha com drone e música minimal, com afinações harmónicas do campo da clássica, pop, neo-clássica, e que ao mesmo tempo utiliza informações de várias outras camadas de trabalhos fora da escolástica do ponto de vista de exploração textural.

 

De 21 a 30 de julho é possível ver na Appleton Square o trabalho de Gonçalo Pena, que se desenvolve sobretudo nas áreas do desenho e pintura.

A programação começa na emblemática Igreja de Santa Isabel no dia 20 de julho, com Delphine Dora, organista, vocalista e pianista, que debaixo do tecto do artista Michael Biberstein vai apresentar o seu trabalho, assente nos eixos do minimalismo, num sítio curioso onde se encontram o Theater of Eternal Music, Olivier Messiaen ou Nico.

Logo a seguir, poderemos ouvir Kassel Jaeger, criador nos campos da electro-acústica e numa visão realmente actualizada das evoluções históricas até ao contemporâneo das práticas concretistas. Kassel Jaeger é também o alias da pessoa que dirige uma antiga e insubstituível instituição da parte que interessa da velha Europa, o INA GRM, espaço fundacional de muitos movimentos livres, inteligentes, emancipadores do modernismo e pós-modernismo no campo da composição das últimas décadas neste continente.

No dia seguinte, o festival apresenta Anthony Pateras, pianista de elegância invulgar, trabalha muitos interstícios entre Cecil Taylor, Morton Feldman, e as várias acelerações e desacelerações da música improvisada do último meio século. Segue-se Stefano Pilia, guitarrista e compositor italiano que vai apresentar o seu mais recente “Spiralis Aurea”, um trabalho para instrumentações várias inspirado por uma visita sua a um cemitério em Itália onde vários soldados germânicos estão sepultados. E por fim, Riccardo La Foresta, baterista e percussionista numa rara “tradição” minimalista para esse tipo de suportes, que trabalha música contínua sobre o espaço ressonante, vindo da escola de Lê Quan Ninh, mas mais concentrado no som contínuo e nas suas potencialidades aumentadas a partir de tecnologia (física).

No dia 22 de julho, o músico e baterista português João Lobo, que se tem eixado primeiramente num âmbito jazz, mas com abertura mental, emocional e estética para abraçar várias outras formas e vocabulários vindos desse ângulo vai inaugurar os concertos no Terraço do Centro Cultural nesta segunda edição do Festival.

 

A última semana do festival começa com Timo Van Luijk & Bart De Paepe, duo sediado na Bélgica. Van Luijk tem um curioso currículo que perpassa as correntes sombrias de um underground britânico, e que ajudam a colorir a sua música, com colaborações com Nurse With Wound, Edward Ka-Spel ou Andrew Chalk, alguns dos mais curiosos e iconoclastas misticistas daquela ilha. Bart de Paepe é um guitarrista psicadélico com óptimo tom de guitarra, e também o fundador Sloow Tapes, um marco do primeiro quarto de século nas manobras mais marginais da música independente do seu país, e de um underground europeu interessado na desconstrução do rock.

 

Ondness, projeto solo do músico Bruno Silva, e seu território de preferência para as suas execuções artísticas desconstrutivistas mais íntimas vai apresentar-se no dia 28 de julho. Está aqui esse seu trabalho sobre timbragens vindas de todo o lado vocabular; análise e contemplação de shuffles e arritmias de toda a parte do globo; utilização de dinâmica e silêncio como estruturas arquitectónicas de construção sonora. Se – com Carlos Nascimento – nos Sabre explora o veículo da música na pista de dança, e em Serpente ideários ainda mais abstractos, é com esta identidade, como observável em “Megadawn” (editado este ano pela editora lisboeta Holuzam), que tenta fazer sentido directo da experiência de estar vivo no meio da selva. Para esta instância convida Margarida Garcia, César Burago e Raphael Soares.

 

O Festival termina no dia 29, no terraço do Centro Cultural, com o concerto de Eric Chenaux, guitarrista e escritor de canções canadiano, de trabalho essencialmente modal, pega no tipo de canções progressistas que parecem buscar inspiração a pássaros cubistas, na linhagem de Robert Wyatt, Mayo Thompson, Anthony Moore ou David Grubbs (que já marcou presença no passado neste ciclo). Interessa em particular também a sua capacidade de calibrar o som na sua natureza dinâmica, e é curioso a forma como se apresenta, “no fundo”, como um conceptualista concentrado em luz e bondade.

Partilha