Encenado por Albano Jerónimo… “Orlando” estreia em Guimarães

A transexualidade e as questões de género ainda incomodam muita gente. E como seria há um século? Supomos que seria um não-tema, por ser literalmente abafado. Todavia, em plena década de 1920, a temática pareceu relevante a Virginia Woolf. Com uma atitude muito à frente do seu tempo, típica dos génios, escreveu “Orlando” – uma biografia fictícia onde aborda estas questões de forma subtil e irónica.

 

Em “Orlando”, conta-se a história de um inglês nobre que passa por inúmeras experiências de vida. Quando completa 30 anos, acorda com o corpo de uma mulher. O que surpreende não é a simples transição de sexo, mas a forma como Woolf narra essa mudança. Ao contar a transformação de Orlando, o texto faz uso de uma ironia propositadamente exagerada com o objetivo de chegar ao seu contrário – à verdade e à franqueza. O que fica claro, e inequivocamente evidente, é que não existe imutavelmente homem ou mulher.

A transformação é possível porque o fundamental é a liberdade da pessoa – do espírito e da inteligência. Um homem e uma mulher não têm de ser prisioneiros de um género pré-definido. Nem ser julgados e/ou postos como alvos do ódio, apenas por reclamarem liberdade sobre o seu próprio corpo.

 

Na noite de 12 de junho de 2016, o norte-americano de origem afegã Omar Mateen, de 29 anos, entrou armado na discoteca “Pulse” em Orlando, no centro da Florida, e disparou contra os presentes. As vítimas participavam numa “Noite Latina” organizada pela discoteca, frequentada por homossexuais, lésbicas, bissexuais e transexuais. O ataque foi considerado o pior, com arma de fogo, na História recente dos Estados Unidos da América.

 

Com este espetáculo, a companhia Teatro Nacional 21 pretende misturar as duas narrativas – a literária de Virginia Woolf e a documental do massacre em Orlando – criando duas travessias que se cruzam. Cláudia Lucas Chéu assina o texto e Albano Jerónimo assume a encenação do espetáculo que contará com as interpretações de André Tecedeiro, Aurora Pinho, Cláudia Lucas Chéu, Diego Bragà, Eduardo Madeira, Luís Puto, Madalena Massano, Maria Ladeira, Pedro Lacerda, Rita Loureiro e Solange Freitas.

 

Antes da estreia a 4 de Dezembro no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e fazendo jus ao seu histórico de trabalho e registo, a Teatro Nacional 21 irá, ainda, apresentar o filme documentário “Samanta’s Cocktail Party”, no dia 30 novembro, às 21h00, no Centro Cultural Vila Flor, em parceria com o Cineclube de Guimarães. Com argumento e realização de Inês Luís, o filme conta a história de Samanta, uma jovem adulta e mulher trans, que decide mudar-se da casa dos seus pais para um apartamento no centro de Lisboa, que partilha com o seu melhor amigo, o Rodrigo. Num cenário totalmente inédito e na adaptação à sua nova vida, passa os dias entre uma insónia provocada pela ansiedade miudinha de finalmente começar a sua vida adulta e o sonho utópico de encontrar uma pessoa com quem possa partilhá-la. Mas esta nova etapa traz desafios inesperados: Samanta terá de confrontar-se com a sua identidade, a passagem do tempo e a possibilidade de nunca vir a realizar-se plenamente.

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