Se Lisa Sereno abriu a terceira jornada do Bons Sons 2026 num registo de contemplação, CRUA tratou de acrescentar outra textura à tarde de Cem Soldos. O coletivo portuense levou ao palco uma interpretação da música tradicional que olha para o passado sem qualquer vontade de ficar preso a ele.
Formado por sete mulheres urbanas, CRUA parte da música de transmissão oral para construir um universo onde tradição e contemporaneidade convivem sem hierarquias. No centro dessa identidade está o adufe, instrumento de percussão que conduz muitos dos momentos da atuação e dá às canções uma pulsação profundamente ligada às raízes populares.
Mas aqui, a tradição não aparece como peça de museu. É matéria viva, transformada através de arranjos, vozes e temas que cruzam repertório tradicional com criação original. O resultado é uma sonoridade que respeita as suas origens enquanto encontra novas formas de as interpretar.
A presença das sete mulheres em palco acrescentou ainda outra dimensão ao concerto. A perspetiva feminista e contemporânea atravessa o projeto sem precisar de ser transformada em discurso permanente: está na escolha do repertório, na forma de o reinterpretar e na própria decisão de ocupar um território musical historicamente associado à transmissão comunitária.
O adufe tornou-se quase uma personagem por direito próprio. Entre batidas secas e cadenciadas, foi criando a base para um diálogo entre vozes, corpos e instrumentos, fazendo com que a música ganhasse uma dimensão simultaneamente ancestral e atual.
Ao longo do concerto, ficou evidente que recuperar uma tradição não significa necessariamente repeti-la. Pode significar questioná-la, transformá-la e devolvê-la ao presente com novas vozes.
No terceiro dia do Bons Sons 2026, sete mulheres pegaram em memórias transmitidas de geração em geração e deram-lhes outra vida.
Uma vida mais urbana, mais livre e, sobretudo, mais CRUA.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


