Se havia uma forma particularmente inesperada de começar o concerto de CMAT, ela estava escondida numa canção que pertence há décadas à memória coletiva portuguesa. Os primeiros acordes de “Amanhã de Manhã”, das Doce, fizeram-se ouvir no palco de Coura e arrancaram imediatamente sorrisos e reações de um público que reconheceu a referência.
A escolha não pareceu meramente decorativa. Desde esse primeiro instante, CMAT deixou claro que não vinha apenas apresentar canções, mas também brincar com referências, códigos pop e diferentes formas de espetáculo. A homenagem às Doce funcionou como uma espécie de cartão de visita para uma atuação onde o humor e a música caminharam lado a lado.
A artista irlandesa rapidamente tomou conta do palco com uma presença exuberante, transformando cada momento numa oportunidade para comunicar com a plateia. Entre canções, gestos e uma personalidade impossível de ignorar, CMAT construiu um concerto que nunca pareceu demasiado preocupado em seguir regras.
O público respondeu à altura. As vozes acompanharam os temas mais conhecidos, os sorrisos multiplicaram-se e a energia foi crescendo à medida que a atuação avançava. Havia uma sensação de festa, mas também uma proximidade que fez com que o concerto parecesse menos uma apresentação formal e mais um encontro entre artista e plateia.
A música de CMAT vive precisamente nessa capacidade de misturar diferentes referências sem perder identidade. O country, o pop e outras influências encontram-se num universo assumidamente teatral, onde o exagero pode ser tão importante como a melodia.
Em Coura, essa personalidade ganhou ainda mais força. A artista parecia confortável perante uma plateia que estava disponível para entrar no seu jogo e que respondeu sem reservas às diferentes mudanças de ambiente.
E tudo tinha começado com as Doce.
“Amanhã de Manhã” podia ter sido apenas uma surpresa para os primeiros minutos do concerto. Acabou por funcionar como uma declaração de intenções: CMAT estava em Coura para celebrar a música pop, brincar com o imaginário coletivo e transformar referências do passado em matéria para o presente.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


