Fontaines D.C. abriram a nova era de “Dopamine Chamber” em Lisboa

A MEO Arena recebeu esta quarta feira 21 de outubro, o arranque da digressão europeia dos Fontaines D.C.. Cinco dias depois da edição de “Dopamine Chamber”, o quinto álbum de estúdio da banda irlandesa, Lisboa foi a primeira cidade a receber ao vivo este novo capítulo, numa noite que cruzou a inquietação do presente com canções que ajudaram a construir o percurso do grupo. A primeira parte ficou a cargo dos irlandeses (do norte) Chalk.

Antes de Grian Chatten e companhia ocuparem o palco, os Chalk apresentaram a sua combinação de eletrónica, guitarras de contornos industriais e energia pós-punk. O duo de Belfast trouxe uma sonoridade carregada de tensão, preparando o ambiente para uma noite em que a música se movimentou entre a urgência do rock e atmosferas mais sintéticas.

A expectativa em torno dos cabeças de cartaz era inevitável. Os Fontaines D.C. regressaram a Portugal num momento de transformação artística, depois de uma trajetória que os levou dos primeiros passos do pós-punk irlandês a uma linguagem cada vez mais abrangente, onde convivem guitarras incisivas, texturas eletrónicas e uma escrita marcada pela inquietação.

A entrada fez-se ao som de “Boys in the Better Land”, recuperando as raízes de “Dogrel”, o álbum de estreia de 2019. Foi uma abertura que estabeleceu imediatamente uma ligação com os primeiros anos da banda, antes de o alinhamento avançar para um território cada vez mais próximo da sua atual identidade sonora.

O passado, porém, não dominou a noite. Pelo contrário, a escolha de Lisboa para inaugurar a digressão europeia colocou “Dopamine Chamber” no centro do espetáculo. Editado a 16 de outubro, o disco explora uma dimensão mais fria e sintética, afastando-se parcialmente da predominância das guitarras que marcou os primeiros trabalhos. A banda parece interessada em testar os limites da própria identidade, procurando novas formas de criar tensão e de explorar a relação entre prazer, desconforto e estímulo.

Essa mudança chegou ao palco através de temas como “Marianne”, “Tongue” e “Where Is Gone?”, que encontraram lugar ao lado de canções já conhecidas do público. O alinhamento incluiu oito temas do novo álbum, uma aposta significativa para um disco com apenas alguns dias de existência. Em vez de apresentar o novo material como um intervalo entre os êxitos, os Fontaines D.C. assumiram-no como parte essencial daquilo que são hoje.

No centro de tudo esteve Grian Chatten. A sua presença continua a ser uma das forças distintivas do grupo: uma figura que não precisa de recorrer a grandes discursos para transmitir intensidade, deixando que a voz, os gestos e a própria postura acompanhem a tensão das canções. Ao seu lado, Carlos O’Connell, Conor Curley, Conor Deegan e Tom Coll sustentaram uma arquitetura sonora que alternou entre o impacto das guitarras e uma construção mais atmosférica.

A dimensão política, igualmente importante no universo dos Fontaines D.C., também encontrou expressão durante a atuação. Em “Where Is Gone?”, Chatten percorreu a extensão do palco em direção ao público, segurando uma bandeira palestiniana. O gesto acrescentou uma dimensão visual a uma noite em que a música não se desligou das inquietações do mundo.

A reta final trouxe alguns dos momentos mais reconhecíveis do repertório recente da banda. “I Love You” e “Starburster” fizeram parte do encore, antes de “Six Shot Morning”, tema de abertura do novo álbum, encerrar o concerto com uma escolha que privilegiou a atmosfera e a tensão em vez de uma despedida convencional. Uma decisão coerente com uma banda que parece cada vez menos interessada em repetir fórmulas.

O espetáculo da MEO Arena foi, acima de tudo, um retrato de uma formação em movimento. Os Fontaines D.C. já não são apenas a banda que conquistou o público através da urgência do pós-punk e das narrativas urbanas de Dublin. Continuam a carregar essa inquietação, mas procuram agora outras texturas, outros espaços e outras maneiras de a transformar em música.

Ao escolher Lisboa para o primeiro concerto desta digressão europeia, o grupo colocou o público português na linha da frente de uma nova etapa. Entre os temas que abriram caminho à sua ascensão e as canções que começam agora a definir o futuro, a noite mostrou uma banda consciente do percurso feito, mas ainda disposta a arriscar.

Os Fontaines D.C. deixaram Lisboa com Dopamine Chamber apresentado ao vivo e uma nova estrada pela frente.

Não regressaram para olhar apenas para aquilo que foram.

Vieram mostrar aquilo em que se estão a transformar.

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🖋 Diana Silva

📸 Maria Vilaça

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