Bandua lançam “BANDUA II” ancorados na memória, focados no horizonte e imersos na tRAVEssia

Há barcos que não navegam sozinhos. Há memórias que não ficam no lugar onde nasceram. E há identidades que se fazem precisamente do movimento. É a partir destas ideias que os Bandua chegam a “BANDUA II”, o segundo álbum da dupla formada por Bernardo D’Addario e Edgar Valente, que encerra um primeiro ciclo do projeto e abre caminho a uma nova etapa, centrada na circulação entre memória, território e futuro.

O disco tem edição física e digital no Bandcamp a 2 de outubro, em CD e vinil, pela Ajabu! Records, de Berlim, chegando às restantes plataformas digitais a 9 de outubro. A apresentação ao vivo está marcada para os dias 24 e 25 de outubro, na Sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa, dando início à tRAVEssia, digressão de lançamento de “BANDUA II”.

O lançamento sucede a “Flor do Rosário”, editada em maio e a “Barquinho” em junho. Se o primeiro álbum, “Bandua I”, construía um mito de origem ancorado em Berlim e na Beira Baixa, “BANDUA II” desloca-se desse mito para o presente. O eixo deixa de estar na procura de uma identidade e passa a estar naquilo que acontece quando diferentes identidades, memórias e geografias se encontram.

“O eixo deixa de ser a identidade e passa a ser a alteridade, é menos uma pergunta sobre quem fomos, mais uma constatação sobre o que somos: cruzados, plurais e inacabados”, explica Edgar Valente.

Nesse presente, Portugal aparece como um porto: um território onde embarcam e desembarcam memórias, legados e pessoas, atravessado por circulações que nunca param de o desconstruir e reconstruir. É essa condição de um país historicamente voltado para o mar, pequeno e periférico, e por isso inevitavelmente empurrado para fora de si próprio, que os Bandua tomam como matéria de trabalho.

A metáfora da polinização surge como uma das chaves de leitura do álbum. Ancestralidades e tendências globais cruzam-se e transformam-se mutuamente, à maneira de abelhas e flores, sem que umas referências tenham de se impor, apagar ou apropriar-se das outras. É uma proposta que reconhece a violência inscrita na história colonial portuguesa e procura, a partir dela, pensar uma gramática de encontro em vez de uma gramática de posse.

A imagem do barco, já central em “Barquinho”, ganha assim uma nova dimensão. Se nesse tema uma pequena embarcação se recusava a navegar sozinha, transformando-se em lugar de abrigo, comunidade e encontro, em “BANDUA II” essa recusa torna-se método de trabalho. A viagem só acontece quando há pessoas dispostas a navegar em conjunto.

O próprio nome Bandua remete para uma entidade celtibérica associada ao ato de atar e desatar nós, imaginada aqui como a força invisível que, a partir das cordas das velas, orienta o barco. A ideia de ligação, cooperação e dependência mútua atravessa todo o disco e prolonga-se também no seu universo visual.

Musicalmente, “BANDUA II” amplia consideravelmente o território explorado pela dupla. Às raízes do cancioneiro regional da Beira Baixa juntam-se referências provenientes de outras regiões, como o Alentejo, e novas canções originais que continuam a dialogar com diferentes formas do cancioneiro popular português. A estas referências somam-se ainda outras geografias e temporalidades, do Egito Antigo ao Norte de África e às heranças célticas, sem que nenhuma delas se imponha como uma nova essência.

Também a componente eletrónica se transforma. O downtempo, que marcou parte importante do primeiro trabalho dos Bandua, deixa agora de ser predominante. O bpm acelera, abrindo espaço a momentos mais progressivos e ao drum and bass, levando o corpo a diferentes formas de se mover. A diversidade sonora acompanha a própria natureza da cena eletrónica em Portugal, eclética e sem identidade fixa, assumida pela dupla como território de exploração.

A dimensão visual do álbum aprofunda igualmente a reflexão sobre ligação e dependência. No videoclipe de “Barquinho”, os elementos da banda surgem atados um ao outro numa imagem deliberadamente provocatória, que convoca as amarras históricas, incluindo as da escravatura. A imagem não procura ser confortável: é antes uma forma de olhar para os nós que ainda apertam e pensar a possibilidade de os transformar em nós que libertam.

Na capa do disco, concebida por Carolina Mandrágora, uma figura de capitão que presta continência a um camponês convoca a ideia de respeito pelo ritmo da terra. Essa relação entre território, tradição e contemporaneidade prolonga-se nos novos figurinos, concebidos por Nuno Gama, com máscaras construídas a partir de peneiras camponesas.

Para a apresentação ao vivo, os Bandua levam ainda mais longe este universo. A nova cenografia, concebida por Pedro Conceição em parceria com o Centro Cultural de Lagos, amplia para as dimensões do palco o barco de papel presente na capa do disco. Sobre esta estrutura serão projetados lasers e conteúdos de vídeo-arte pela Paleta Itinerante, a partir de imagens captadas por João Alkmim, criando uma dimensão visual que cruza diferentes elementos e geografias do universo simbólico de Bandua


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🖋 Redação / press release

📸 Alessandra Peviani 

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