The xx… A arte de desaparecer para permanecer

Num tempo em que os concertos se tornaram exercícios de permanente estimulação, a atuação de The xx no primeiro dia do Primavera Sound Porto 2026 surgiu como um raro gesto de confiança. Confiança na música. Confiança no silêncio. Confiança num público disposto a escutar.

Desde os primeiros instantes, a sensação era a de entrar num espaço onde as regras habituais deixavam de funcionar. O ruído do festival permanecia algures ao longe, mas dentro daquele perímetro existia outra temporalidade. Uma mais lenta. Mais íntima. Mais humana.

As canções dos The xx sempre pareceram acontecer à meia-luz. Não porque sejam frágeis, mas porque compreendem que algumas emoções só se revelam quando deixamos de as iluminar em excesso.

Ao vivo, essa característica torna-se ainda mais evidente. Cada guitarra surge com a precisão de uma pincelada. Cada linha de baixo ocupa o espaço exato de que necessita. Cada silêncio parece tão importante quanto a nota que o antecede.

Os The xx criam ambientes para serem habitados. O concerto não avançava como uma sucessão de músicas, mas como uma longa corrente emocional que ligava uma canção à seguinte sem nunca quebrar o seu fluxo.

Milhares de pessoas permaneceram suspensas naquele universo minimalista, onde a vulnerabilidade não era escondida nem dramatizada. Apenas existia. Simples, crua e inevitável.

Ao longo da noite, as vozes cruzadas de Romy e Oliver continuaram a soar como duas perspetivas da mesma história. Aproximavam-se, afastavam-se e reencontravam-se constantemente, como se cada canção fosse uma tentativa diferente de responder às mesmas perguntas. Perguntas sobre amor, ausência, desejo e distância. Perguntas que nunca encontram solução definitiva e que, talvez por isso, continuam a acompanhar-nos.

O mais impressionante foi perceber como uma proposta tão subtil conseguia preencher um espaço tão vasto, sem excessos.

Quando o concerto chegou ao fim, não ficou a sensação de encerramento. Ficou antes a impressão de que aquelas canções regressariam mais tarde. Numa viagem noturna. Numa rua vazia. Numa memória que surge sem aviso.

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🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

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