Os Iguanas estão de regresso com “Mala Feita”

Quem se lembra das experiências de “quarto de Doce” (2014) ou da celebração da noite de “Lua Cheia” (2018) terá de se preparar: os Iguanas mudaram. Estão mais polidos, mas também mais pontiagudos, tristes e explosivos, têm mais revista e mais guitarra, mas mantêm a dança.

Leonardo Bindilatti e Lourenço Crespo chegam a 2025 com “Mala Feita” e, para perceber o que mudou, não basta ouvir a discografia do duo: há “Bindi” (2021), há “Lourenço Crespo” (2020), e até podemos ouvir 100 Leio e Kimo Ameba nesta simbiose que se aperfeiçoa à medida que os anos se acumulam e que cada um apura o seu métier individual.

Se os Iguanas de outros tempos fruíam no meio do caos digital, desta vez, com a produção de Leonardo Bindilatti, as melodias da “Mala Feita” ganham vida e textura em linhas de baixo elétrico aprumadas, guitarras lead bem encaixadas (“Ultraviolento” e “Respirar a Tempo”), cordas dramáticas (“Se é Amor” e “Tchau Luna”) ou até um saxofone à Springsteen (“Débora”). São também dele os coros que assumem lugar de destaque, pontuando as vozes com a sua perspicácia melódica.

A elevar a produção de “Mala Feita”, com a ajuda preciosa de B Fachada, a escrita de Lourenço Crespo transforma o realismo em ficção. Um álbum que poderia caber no cânone de disco de fim de relação torna-se num épico com múltiplas personagens e narrativas, em que a ironia e a fantasia dos detalhes carregam mais verdade do que o relato puro.

A meio do disco, na abertura de “Parque Mayer” (“quando olhei p’ra ti / achei que olhavas para mim / querida bailarina / estrábica mais bonita da ilha”), será que há romance ou apenas voyeurismo? Ora, tanto o público da revista descrita como os que só viam um amor/desamor linear “perderam a peça mais engraçada / […] os três da vida airada / no escuro do parque mayer de mão dada” – um triângulo amoroso nas zonas recônditas de um teatro.

“Respirar a tempo” dá-nos o contraste de um instrumental memorável e musculado com uma letra à beira de um ataque de nervos (“a tremer/ vou vacilar”), numa tensão vívida entre “tentar ser feliz” e a “nova família / faladora e mesquinha”, vício e milagre, dor e prazer. Aqui ouvimos laivos de LCD Soundsystem, Placebo e The Fall, rock que não os ouvíamos fazer desde “Kimo Ameba”, processados pelo que conhecemos dos trabalhos a solo de Rabu Mazda e Lourenço Crespo.

“Mala Feita” tem tanta variedade como avanços – “Ultraviolento” é brutal no seu jogo de espelhos (“manipulo quem me convém / não mentia assim aos anos” ou “o abraço que ela me deu / foi ultra violento”), a fazer lembrar uns Bright Eyes com uma válvula de escape autoirónica “emo deprimida”. Já “Multiversos” é uma catástrofe romântica pós-apocalíptica sci-fi, espécie de machadada que abre caminho para o recomeço, enquanto “Tchau Luna” é o adeus perfeito, um noir policial e emancipatório de encanto “lunar”.

“Mala Feita” é para casuais e convertidos, tem tantas camadas que se pode ver a superfície suave ou o interior bicudo; é para nerds e foliões, para dissecar ou para ouvir na festa, é de uma densidade sobrenatural, com “multiversos a conter / multidões trocadas em vida / nada a ver”. __________________________________________________________________________________________________________________________

? Redação / press release

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