Há concertos que não se assistem; respiram‑se. O regresso de Wim Mertens à Casa da Música esta segunda feira 2 de fevereiro confirmou, mais uma vez, que o compositor belga continua a dominar a rara arte de transformar minimalismo em emoção expansiva. Numa sala que parece ter sido desenhada para a sua música — geométrica, clara, quase ascética — Mertens encontrou o palco ideal para um espetáculo que oscilou entre o rigor matemático e a vulnerabilidade humana.
Mertens entrou sem alardes, a sua postura continua a ser a de um artesão: concentrado, meticuloso, entregue ao detalhe. Mas é precisamente dessa contenção que nasce a força do concerto.
Ao longo do espetáculo, Mertens alternou entre passagens instrumentais cristalinas e momentos vocais que só ele poderia interpretar. A sua voz — frágil, aguda, quase etérea — pode surpreender quem a conhece apenas de gravações, mas ao vivo revela uma coerência estética absoluta. É mais um instrumento, não um protagonista, e funciona como fio condutor emocional entre peças que, de outra forma, poderiam parecer demasiado geométricas.
Num panorama musical saturado de estímulos, Wim Mertens continua a oferecer algo raro: tempo. Tempo para escutar, para sentir, para entrar num universo onde a repetição não cansa — revela.
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🖋 📸 Paulo Homem de Melo


