WATTS – Ciclo Sonoro regressa a CRL – Central Elétrica… Porto

No dia 15 de Julho é retomado WATTS – Ciclo Sonoro, uma programação pautada por sonoridades contemporâneas do panorama  nacional e internacional, na CRL – Central Elétrica

 

A abertura fica a cargo de THE HUMM, segunda parte do projeto ambiental de Sarnadas, artista pluridisciplinar sediado no Porto e um dos cabecilhas do colectivo Favela, seguindo-se a The Hum. O registo, gravado ao longo de dois dias durante sessões do qual resultaram oito horas de música, é fruto de um processo de trabalho do acaso, em que um sintetizador caseiro processado por um mixer e modelado por alguns pedais cria uma série de camadas de som, cuja relação e pequenas oscilações controladas pelo produtor resultam num conjunto de oito peças de música orgânica, calma mas carregada de nuances.

 

O projeto é o desdobrar de mais uma das facetas de Sarnadas, também conhecido como João Sarnadas, ou simplesmente Coelho Radioactivo, com um foco claro na melodia e nas possibilidades musicais da sobreposição de elementos simples, alterados ao longo do tempo. É também enformado pela ideia de que cada cidade tem a sua harmonia única, levando o produtor a focar-se nas cidades do Porto e Aveiro, de onde é nativo, nas suas artérias e no conjunto de sons que compõem os seus drones específicos.

 

Ao longo do primeiro disco, Sarnadas criou uma série de peças mais negras, com sons saturados a sobrecarregar sentidos e criar imagens que ultrapassam a realidade. Em The Humm, quase num exercício de oposição, o músico criou peças mais próximas do despertar do que de um sonho lúcido, em que cada espaço absorve luz e as suas formas se tornam mais claras.

 

Logo depois, segue-se MONTES, projeto da venezuelana Arianna Casellas com o brasileiro @Kaue Grindi, sob o selo da Lovers & Lollypops. MONTES cresceram em sítios distintos da América do sul, encontraram-se no Porto há muito, mas só há um ano começaram a tocar e a viver juntos, descobrindo, no desenvolvimento do dia a dia, músicas que aos poucos começaram a mostrar um percurso próprio, como algo que se desenha sozinho ao longo do tempo, com calma. Assim também foi feito o disco, no seu quarto, em frente à cama, do sexto andar de um prédio no centro do porto, com as montanhas no horizonte distante mas com o ruído dos camiões de lixo no semáforo logo abaixo.

Assim pensamos a ideia dos montes, não como uma utopia romântica e idílica, mas como uma metáfora para esse lugar físico ou fantástico, interno ou compartilhado, que se persegue mesmo sem ter a certeza do que é, ao horizonte, percorrendo as impurezas do percurso, os ruídos da estrada, as antenas no caminho. Daí a forte presença de uma insistente dualidade. Caos e calmaria, metal e vento, interior e exterior, longe e perto, confusão e canção.

O disco foi sendo composto e gravado em simultâneo. Uns dias não davam em nada, outros dias as canções quase que se faziam sozinhas, captadas no quarto, casa de banho, linhas comboio abandonadas, praias, florestas, passarinhos de parques e sons de aguinhas aleatórias a correr; avenidas, árvores a ser abanadas, tumultos de vozes, e os sons misteriosos de uma casa, portas a ranger, o vento a soprar na janela e coisas que alguém deixa cair numa outra parte da casa. De algum modo MONTES é só o nome para a sensação de ida que tanto o disco como o projeto se autodenominou.

 

A encerrar a noite Dj Lynce, um dos grandes nomes da noite portuense. Embora pareça paradoxal, Pedro Santos incorpora tanto o caráter do anti-DJ definitivo quanto de um definitivo “must to” no cenário musical da cidade. Dono de uma coleção de discos idiossincrática que manipula com uma técnica impecável, a peculiaridade de Santos vem do seu inteligível, e quase poético, para as expectativas dos frequentadores das discotecas. Esse método de operação produziu alguns conjuntos de DJs realmente oblíquos e únicos; peças sonoras que traduzem para o português o lema “para quem sabe“.

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