Há concertos que procuram criar uma atmosfera. The New Eves fizeram o contrário: entraram em palco e desmontaram a que já existia.
Não porque tenham apresentado o concerto mais ruidoso, mais grandioso ou mais imediato do festival. Pelo contrário. A força da banda britânica nasce precisamente da sua recusa em oferecer respostas fáceis. Cada canção parece existir numa fronteira instável, algures entre a tradição oral e a experimentação, entre a celebração e o confronto, entre aquilo que reconhecemos e aquilo que ainda não sabemos nomear.
As vozes cruzam-se como personagens de uma história antiga que ninguém consegue recordar por inteiro. As cordas surgem tensas, inquietas, como se procurassem romper os próprios limites. Os ritmos avançam sem obedecer a uma trajetória previsível. Nada parece interessado em conduzir o público para um destino específico. O objetivo é outro: perdermo-nos.
Num tempo em que quase tudo é explicado, categorizado e transformado em conteúdo instantaneamente consumível, The New Eves reivindicam o mistério. Não como exercício de pretensão artística, mas como forma de resistência. Há beleza em não compreender tudo. Há liberdade em abandonar a necessidade de traduzir cada emoção.
Durante a atuação, o palco tornou-se um espaço de permanente transformação. Por momentos parecia uma assembleia folk saída de um passado distante. Logo depois, assumia a intensidade de um concerto punk prestes a implodir. Noutras ocasiões, aproximava-se mais de uma performance artística do que de um espetáculo musical convencional.
O fascínio do concerto residiu precisamente nessa sensação de instabilidade. Como observar uma fogueira sem procurar formas definidas nas chamas. Como escutar uma conversa numa língua desconhecida e, ainda assim, compreender-lhe a intenção.
Num festival cheio de certezas, The New Eves foram uma magnífica dúvida.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


