Ready for the ride? A viagem de Mariana Couto com Spiralist

Maio de 2025.

Quase quase a bater na data em que celebro 3 anos de Glam.

Spiralist lança, dia 23, com o selo da Raging Planet, o seu terceiro álbum.

“Violent Feathers” é um álbum especial, to say the least, que levou a Bruno Costa (membro fundador, e essencialmente a mente criativa por detrás de todo este projeto) três longos e duros anos a conceber.

A sua gravação, no estúdio Caos Armado, situado em Santa Maria da Feira (yeahh!), esteve a cargo de Daniel Valente dos AVESSO, e para além de Bruno Costa que gravou as vozes (já tinha gravado o baixo, as guitarras, e os sintetizadores) juntaram-se Benjamim Gomes (noise), Daniel Sampaio (vocal effect em “Death Throes“), José Soares (bateria), e três convidados especiais: Graça Carvalho dos indignu (violino em “Closure”), Sofia Magalhães dos Pledge (voz em “Underbelly”), e João Pedro Amorim do projeto ORLA (trompete na “Death Throes“).

O toque final ocorreu, na Suécia, mais concretamente, nos Fascination Street Studios, por onde já passaram nomes como Opeth ou Katatonia (that’s right!), sendo que a mistura e produção ficou nas mãos de Ricardo Borges, e a masterização nas de Tony Lindgren.

Atualmente Spiralist conta com Élio Mateus na bateria, Filipe Vilela na guitarra elétrica, e Daniel Sampaio no baixo. Foram estes três bons rapazes que nos abriram as portas da socorro, no dia 3 de Maio, para uma memorável Listening Party do disco, apresentado, na sua íntegra, e em exclusivo, aos 35 sortudos que tiveram o privilégio de comparecer.

E foi também este o power trio que, poucas semana depois, acompanhou Bruno no concerto de apresentação de “Violent Feathers”, que teve lugar numa das salas mais míticas da Invicta, o quarto andar com mais história do Porto, de seu nome Maus Hábitos.

Portanto, recapitulando: 3 anos de Glam, terceiro álbum, três anos de conceção, três convidados especiais, uma Listening Party no dia 3 de Maio, e um power trio…

I mean…

That’s too many triads to ignore…

And so, I did not…

Para celebrar, condignamente, tanta Poesia (porque eu não acredito em coincidências, já em Poesia…), decidi fazer algo diferente.

Em vez de me cingir a um elemento jornalístico, resolvi escrever (yup, you guessed it!) três.

Ready for the ride?

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Primeira paragem: ENTREVISTA

To the mastermind Bruno Costa

Se me permites, antes de começarmos eu tenho um pequeno disclaimer a fazer: esta será a minha primeira entrevista de sempre.

Como dizia o Mestre Bowie “absolute beginner” in the house! 

Portanto peço, desde já, desculpas (a ti e quem nos esteja a ler) por algum “prego” que possa acontecer… 

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Dito isto, e antes de tudo o resto, muitos parabéns por este “Violent Feathers” que está um disco realmente brutal, em todos os sentidos da palavra (tanto o sombrio como o luminoso). A primeira questão que gostava de te colocar era sobre a razão deste título. Porque é uma expressão que não aparece em música nenhuma, ou em letra alguma, só mesmo no título do álbum.

Algum significado especial?

Sim, mas vou guardá-lo para mim. Posso dizer-te que é um título que já tenho em mente desde ainda antes de ter lançado o primeiro álbum de Spiralist, em 2018. Adiro definitivamente à escola de pensamento criativo do David Lynch e à ideia de que por vezes apanhamos uma ideia e só sabemos porque é que a apanhamos anos mais tarde.

2

Very well. Keeping the mystery alive. Totally respect that!

E agora uma pergunta um bocadinho mais musical (não vou entrar na parte de produção, e masterização, promise, até para evitar os ditos “pregos”…) mas instrumentalmente, se quiseres, senti neste disco uma grande mudança em relação aos teus trabalhos anteriores.

Senti-o na Listening Party na socorro, em que apresentaste, ao público, o disco na sua íntegra, em primeiríssima mão (obrigada por essa oportunidade by the way) e tive a confirmação, uma semana depois, no concerto no Maus Hábitos.

Fiquei com a sensação de que este disco, pela primeira vez, foi maioritariamente composto ao piano, em vez de à guitarra. Estou certa, ou nem por isso?

Estás certa na medida em que a guitarra não foi o instrumento mais usado na escrita do álbum, porque não houve um instrumento principal neste trabalho. A escolha da instrumentação obedeceu ao que era pedido por cada canção. Eu sabia que a “Closure” pedia um momento particularmente emocional e contemplativo, e visualizei intuitivamente o piano no centro da música, mas no caso da “Underbelly”, por exemplo, onde estou a falar de sentimentos particularmente negativos enterrados dentro de mim, dei por mim a começar pelo baixo e a focar-me em frequências graves. O meu objetivo é fazer com que os ouvintes sintam, da forma mais autêntica e genuína possível, o que eu estou a sentir em cada canção. E a escolha da instrumentação reflete isso.

3

Right. E essa abordagem quase “exterior” de deixares que sejam as músicas (e as letras) a pedirem os instrumentos, em prol da autenticidade, colocando-te, a ti próprio, um bocadinho de parte, quase como que numa postura de observador, acabou por, ironicamente, ou não, te deixar com muito mais liberdade, em palco.

Tanto, que, no concerto no Maus Hábitos, dei por mim a assistir à tua metamorfose de vocalista instrumentista para vocalista frontman…

Sim. Passei alguns anos a gerir três instrumentos diferentes em palco e a cantar ao mesmo tempo, e para além dos desafios logísticos dessa gestão tinha também de confrontar uma barreira psicológica que me inibia de sentir as canções em palco a 100%. Estamos a abordar as coisas de uma forma diferente agora, e sinto-me muito mais solto.

4

Uma outra mudança, neste disco, foi a participação de três convidados de luxo: a Sofia Magalhães dos Pledge, na “Underbelly, a Graça Carvalho dos indignu, na “Closure“, e o João Pedro Amorim do projeto ORLA, na “Death Throes” Porquê trazer convidados para este disco? E porquê estes três incríveis, em particular? Foi planeado? Aconteceu?

Foi orgânico. Acho que não seria capaz de escrever uma canção propositadamente pensada para incluir alguém em particular. As canções, e o conceito do álbum, ditam os sons de que precisam, e só aí falo com as pessoas (idealmente próximas) que sinto encaixarem perfeitamente no trabalho. Foi definitivamente uma honra e um prazer trabalhar com estas pessoas. Admiro muito a música delas, e as pessoas que são.

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Arriscarias dizer que o “Violent Feathers” é um disco conceptual?

Sim, mas de uma forma não-linear. Não querendo dizer demasiado, posso garantir que as histórias e temáticas estão profundamente conectadas. Mas é um puzzle, e as peças têm de ser pacientemente encaixadas para a imagem completa se formar. O “Violent Feathers” recompensa múltiplas audições, para quem estiver atento ao que está a acontecer nas canções.

6

There you go again with the mystery…

Acho muito bem!

Olha, afinal não tinha só um disclaimer, lembrei me, agora, de outro: eu da primeira vez que ouvi o álbum (na socorro) confesso que não me lembrei, por uma vez, que fosse, dos EPs e LPs anteriores de Spiralist…

Sabes o que é que eu ouvi (e muito!) no “Violent Feathers”?

Blackbird Prophet.

Ok, consigo ver a conecção.

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E não quero com isto menosprezar, de maneira alguma o “Nihilus“, o “The Church Died Black“, o “The Future EP” nem o “Eternal Recurrance” atenção…

Mas, de facto, eu (enquanto pessoa que teve o privilégio de ver nascer e, infelizmente, morrer os Blackbird Prophet, e de seguir o seu trabalho tão de perto, como eu segui) realmente vejo o “Violent Feathers” quase como uma versão “revista e melhorada” do “Aetherea”.

Claro que uma versão muito melhorada, em termos técnicos, artísticos, cénicos, instrumentais, vocais, tudo isso. Passaram 11 anos. É normal…

Consigo entender isso, até certo ponto. Em Blackbird Prophet escrevíamos canções, e em Spiralist só voltei à escrita de canções com uma estrutura mais convencional no “Violent Feathers”. Para ser completamente franco, não ouço nem consigo ouvir Blackbird Prophet há anos. Mas sinto que este álbum novo junta, ainda que não de uma forma premeditada, as diversas partes do meu ADN musical, incluindo elementos dos Blackbird Prophet e de todos os trabalhos anteriores de Spiralist, num álbum só.

8

Este disco, e corrige-me, se estiver completamente errada, mas, na minha cabeça, este era o disco que tu sonhavas fazer quando os Blackbird Prophet nasceram.

Aliás, eu até me lembro de escrever, mas minhas notas, enquanto ouvia o álbum, na cave da socorro, algo como:

“Este é o disco da carreira dos Spiralist e o disco da vida do Bruno“.

Confirmas? Desmentes? 

É definitivamente o meu álbum mais pessoal e aquele que mais exigiu de mim a todos os níveis. Estou profundamente orgulhoso deste álbum. Mas não arriscaria dizer que é o disco da minha vida, porque enquanto artista não posso pensar dessa forma, e arriscar achar que me posso desleixar a partir daqui. E não sei que desafios o dia de amanhã trará, e que música pode resultar do que quer que aconteça na minha vida no futuro. Não quero com isto dar a entender que estou a trabalhar em música nova para Spiralist neste momento, porque não estou – quero disfrutar deste momento e dedicar-me a outras coisas também, e sinto que mereço isso. Acabei de sair de um longo período, extremamente intenso com a criação do “Violent Feathers”. Mas, para usar um exemplo de outra área, quando o Paul Thomas Anderson lançou o “Magnolia”, também o terceiro trabalho dele, ele disse que achava que, para o pior e para o melhor, esse filme ia ser a melhor coisa que ele alguma vez faria. E depois acabou por fazer obras-primas como o “There Will Be Blood”, o “The Master” e o “Phantom Thread”. Não me estou a comparar ao PTA, ele é incomparável, quero apenas dizer com isto que não sabemos mesmo o que o futuro nos trará.

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Já que falaste no futuro, vou buscar uma pergunta, que tinha deixado mais para o fim, e, se me permites, vou colocar-ta agora.

Como já mencionaste várias vezes (e até começaste por falar dele, logo na primeira pergunta) uma das tuas maiores inspirações, particularmente, agora, para o “Violent Feathers” foi o David Lynch.

O que me leva a pensar (especialmente depois de assistir aos videoclips, que estão, também eles, soberbos) se já alguma vez te passou pela cabeça fazer um filme?

(Até porque tenho a dizer-te que estás feito um verdadeiro ator…)

Escrever um guião, compor a banda sonora, algo assim tipo “The Wall“…

Ou até, quem sabe, fazer isso com o próprio “Violent Feathers”?

Just a thought…

Adorava estar envolvido no mundo do cinema. Queria ser realizador, em criança, antes de querer ser músico e artista. Mas não sinto que tenha o “know-how” necessário para isso. Estivemos para fazer uma curta-metragem baseada no “Violent Feathers”, mas acabamos por seguir outra abordagem. Posto isto, consigo imaginar-me a fazer música para o mundo do cinema, sem dúvida.

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A sério?  Juro que não sabia… As coisas que se descobrem numa entrevista…

Quem sabe, daqui por uns anos, não teremos acesso a essa curta-metragem?

Se seguirmos a  filosofia do Mr. Lynch…

Eu fiquei curiosa. E os leitores aposto que também. É só esperar people, é só esperar!

Agora fora de brincadeiras…

Bruno, o “Violent Feathers” levou 3 anos a nascer. E esses três anos não estão relacionados apenas com o esforço, a dedicação, e o sacrifício que requer, no meio underground português, a ousadia de pôr um disco cá fora… O conceber e criar este disco envolveu muita perda e muito sofrimento.

O que nos leva a outra parte, também muito importante (senão a mais importante mesmo…) deste álbum, que, é o seu background.

É púbico, tu mesmo o assumiste, since day one, que tudo começou, a partir do momento em que tomaste a decisão de fazer psicoterapia, com o intuito de te confrontares com determinados episódios traumáticos da tua vida.

(Props by the way! For that. Muitos muitos props!)

A minha pergunta é: entendes que este álbum te “curou”?

Acho que o álbum, e definitivamente também a psicoterapia, me ajudaram a aprender muito sobre mim e a progredir. Mas não deixa de ser um processo contínuo, apesar de ter agora ferramentas que não tinha anteriormente. Sinto-me mais capaz agora de lidar com confrontos e reconhecer manipulação e abuso do que antes. E sinto-me mais capaz de me defender e ceder menos. Não é saudável querer agradar a toda a gente e aceitar sempre ceder à vontade de pessoas próximas porque assumes que as vais perder se disseres “não”. Este álbum, e principalmente a psicoterapia, ensinaram-me a lidar com isto e muito mais.

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Certo. Sentes que as duas vertentes foram fundamentais?  Complementares até…

A música e a psicoterapia? Sim, sem dúvida. A psicoterapia mostrou-me o caminho para as respostas, e a música clarificou e materializou os meus sentimentos.

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Consideras a Arte (neste caso o Música e a Poesia, porque és tu quem compõe e escreve as letras) uma forma de terapia?

Acho que pode ser terapêutica, mas nada substitui psicoterapia. Não há nada como falar com um/a profissional que sabe o que está a fazer. Mas a minha experiência diz que usar as duas coisas de uma forma completar traz resultados inegáveis.

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E agora uma outra pergunta, um bocadinho mais futurista, mas ainda com um pezinho neste lago da psicoterapia…

Depois deste álbum. Tão poderoso. Tão verdadeiro. Tão forte. Tão genuíno.

O que é que se segue?

I mean, para onde é que se vai, depois disto? 

É uma boa questão. Como disse, não estou a trabalhar em música nova neste momento. Em trabalhos anteriores, sempre que lançava algo novo, já estava a trabalhar no lançamento seguinte. Desta vez quero estar mais presente. E preciso de sentir intuitivamente que chegou o momento de fazer algo novo. Sinto que isso vai acontecer e esse momento está a caminho, mas ainda não está cá, e não é preciso pressa.

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Muito bem, emergindo, agora, por completo, das águas terapêuticas, e voltando a terra firme, que é como quem diz, ao palco:

Planos para tocar, concertos confirmados, alguma coisa que se possa adiantar?

Devemos anunciar os detalhes de uma visita a Lisboa em breve, mas por enquanto é só. Queremos muito mais. Mas veremos o que o futuro nos reserva.

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And now,  for the last (but not least) question.

Mais de 11 anos volvidos.

E um disco destes lançado.

Bruno, please tell me: 

(‘Cause I’ve been dying to know…)

Did time heal it all?

Não esperava uma referência a Blackbird Prophet! O tempo ajudou, sim. E a música. Amigos também. E família. Boas pessoas fazem toda a diferença. Mas o processo é sempre contínuo. O segredo é não baixar os braços.

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Bruno, muito muito obrigada!

Foi uma honra! 

Obrigado eu, Mariana.

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? Mariana Couto

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