O regresso de Tigran Hamasyan à Casa da Música, na noite de 21 de abril de 2026, foi mais do que um concerto — foi uma experiência sensorial, espiritual e quase cinematográfica.
Perante uma sala esgotada e em silêncio reverencial, o pianista arménio voltou a provar porque é considerado um dos músicos mais visionários da sua geração: cada peça é um universo, cada improviso uma viagem, cada silêncio uma respiração partilhada.
As primeiras notas surgiram quase como um sussurro, num equilíbrio frágil entre minimalismo e tensão. Hamasyan entrou concentrado, como se estivesse a abrir uma porta interior antes de convidar o público a atravessá-la. A partir daí, o concerto tornou-se um fluxo contínuo entre tradição arménia, jazz contemporâneo, polirritmia e espiritualidade.
Ao vivo, Tigran confirma aquilo que os discos apenas insinuam: a sua técnica é prodigiosa, mas nunca exibicionista. O virtuosismo está ao serviço da emoção e é isso que faz com que cada explosão rítmica, cada mudança abrupta de dinâmica e cada melodia ancestral soe inevitável, orgânica e viva, em que o pianista alternava entre delicadeza absoluta e tempestades percussivas, transformando o piano num instrumento de múltiplas vozes.
Momentos inspirados no folclore arménio foram alguns dos mais intensos da noite. Hamasyan canta, murmura, respira com o piano.
O encore trouxe uma das peças mais líricas do repertório, tocada com uma delicadeza quase transparente.
Quando a última nota se dissolveu, a sala permaneceu em silêncio durante alguns segundos — aquele silêncio raro que só acontece quando ninguém quer quebrar o momento. Depois, uma ovação de pé que parecia não ter fim.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


