4 de Dezembro de 2021
Já se passaram três anos.
Três anos sem Pedro Gonçalves.
Um Senhor que deixou uma marca na Música portuguesa como poucos conseguem.
Um Senhor que dedicou a sua vida a encantar este Mundo com a sua, tão própria, Magia.
Três anos!
De uma estranha escuridão.
Quase nem parece verdade…
E, perdoem-me, por favor, os amigo mais íntimos e a família, pela heresia que estou prestes a escrever, mas, talvez não seja, de facto, verdade, na sua absoluta totalidade…
Talvez, de uma maneira extremamente simbólica, poética até, mas não menos válida por isso, o nosso Cangalheiro preferido continue entre nós.
Não da mesma forma, claramente, mas sob muitas outras. Sob a forma de Amizade. Sob a forma de Irmandade. Sob a forma de Inspiração. Sob a forma de Amor.
E talvez, também, porque, no meio de toda a escuridão, durante estes três anos, se estivéssemos bem atentos, teríamos conseguido observar vários “cometas” que foram brilhando sobre nós.
Fontes de Luz (vindas de lá de cima, quem sabe?) para iluminar a nossa Alma (pesada).
Ao primeiro cometa, nem me ocorre a ideia de lhe dar um nome, pois não necessita sequer de denominação, pela tamanha prova de Amor que foi… Basta-lhe o sentimento. E esse foi imenso!
Tantos sentimentos devem ter corrido (a mil à hora) dentro daquele coração estilhaçado… Sim, o de Tó Trips, quando, apenas três escassas horas depois de receber, por chamada telefónica, a fatídica notícia, se apresentou no palco do “Courage” (evento que consiste numa espécie de preview do Paredes de Coura) para dar um concerto, que ficará, com certeza, para a história… (a fotografia que ilustra o texto é desse concerto)
Não só daquele “festival”, em específico, mas, atrevo-me, mesmo, a dizer, da Música ao vivo em Portugal…
Um concerto, que pouquíssima gente estaria à espera que se realizasse, que toda a gente compreenderia se não se realizasse, mas que Tó (porque é o Tó – qualquer outra pessoa o cancelaria) fez questão que se realizasse.
Um concerto que foi muito mais que um concerto: foi um gigante ato de Coragem, de Resiliência, de Companheirismo, de Amizade e de Força.
Tudo fruto dessa profunda ligação que unia um Gangster a um Cangalheiro.
O segundo cometa, também foi um concerto, mas desta feita, havia nome para lhe dar.
(Um nome lindo, diga-se de passagem…)
“Esse Olhar que era Só Teu” (título de um dos mais icónicos temas dos Dead Combo) foi uma comunhão, muito especial, entre vários amigos (que é como quem diz Artistas) e membros da família Dead Combo (que é como quem diz da própria família do Pedro), distintamente dirigida por Filipe Melo e António Quintino, que contou com a participação de nomes, incontornáveis, como Aldina Duarte, Gaspar Varela, Peixe, e Alexandre Frazão.
Ou até mesmo Camané, que, não constava do vasto e maravilhosos leque de convidados, divulgados, de forma oficial, no cartaz, mas que ainda conseguiu aparecer de surpresa.
E claro, Tó Trips, que, corajosamente, sentado no seu típico “banquinho”, colocado, meticulosamente, no centro do palco do São Luiz, e emocionalmente protegido por uma cortina de saudade, se despediu, “sozinho” daquela que foi, sem dúvidas nenhumas, a banda mais importante da sua vida.
Sendo que o “pendurar da Cartola” ocorreu por duas vezes no mesmo dia, dada a gigante afluência, que fez com que o espetáculo tivesse de se multiplicar por dois horários diferentes.
Só mais uma prova do imenso Amor que todos guardamos por Pedro Gonçalves.
O terceiro, e último cometa (mas não menos importante, de todo!) chama-se “O Cangalheiro (Canção para Dead Combo)” e foi avistado, a reluzir, no ano passado.
Mais especificamente, na terceira faixa do álbum de estreia (de seu nome “Ressaca Bailada”) dos Expresso Transatlântico, que, como discípulos orgulhosamente assumidos da dupla lisboeta, não quiseram deixar de lhe(s) prestar a sua humilde e devida homenagem.
Com todo o Respeito e Admiração do Mundo.
Respeito.
Admiração.
E Amor.
Porque, no fundo, todos estes “cometas”, que trouxeram Luz à escuridão, nada mais foram senão Amor.
E o Amor, esse, nunca morreu.
Nem há de morrer…
Enquanto houver quem ouça Dead Combo, enquanto houver quem ouça Tó Trips (a solo), enquanto houver quem ouça Expresso Transatlântico, enquanto houver quem ouça Aldina Duarte, enquanto houver que ouça Carlos Paredes, enquanto houver quem ouça Camané, enquanto houver quem ouça Sérgio Godinho, enquanto houver quem ouça Xutos, enquanto houver quem ouça Ladrões do Tempo.
Enquanto houver quem vá ouvir, agora, o disco novo (e em português!) do Mazgani.
Enquanto existirem essas pessoas, o Pedro nunca há de desaparecer.
Porque o Pedro, fosse como guitarrista, baixista, pianista, contrabaixista, produtor, ou já “só” mesmo como inegável inspiração, faz parte da vida de todos estes artistas.
De cada um deles.
E fará sempre.
Porque a Música estava dentro do Pedro, e o Pedro está dentro da Música.
E a Música, como Arte que é, não morre.
Tal como as lendas.
(Escrevia eu, há dois anos, sobre um outro (Zé) Pedro que, também, nos deixou precocemente)
E se as lendas não morrem, os cangalheiros então…
Os cangalheiros (e este em especial) são infinitos.
? Mariana Couto
? Paulo Homem de Melo


