Nota de Autora:
Este texto estava escrito no dia 30 de Dezembro de 2024.
Pronto para ser lançado no último dia do (agora passado) ano.
Foi nesse contexto que o escrevi.
Mas o inesperado aconteceu, e já perto do final desse mesmo dia 30, todos nós fomos informados da triste notícia do falecimento de Adília Lopes.
A Poesia portuguesa ficou, para além de mais pobre, obviamente, em choque, e de luto.
Por respeito, mas, sobretudo, por achar não fazer sentido absolutamente nenhum lançar este texto (tendo em conta as pessoas e as temáticas que envolve) na data em que era previsto que o fizesse, não o fiz.
Decidi esperar.
Dar algum tempo à dor para diminuir.
O pouco possível…
Passada uma semana, pensei ser uma altura, não certa, mas, pelo menos simbólica, para lançar este texto.
Bem sei que não é tempo suficiente para luto nenhum, mas, ainda assim, decidi-me a fazê-lo.
E decidi-me a lançá-lo intacto.
Sem mudar uma vírgula.
Porque só assim faz sentido.
Portanto, com todo o meu respeito por Adília Lopes, pela Poesia em geral, e pelas Artistas sobre as quais irei, agora, escrever, cá vai…
Um texto sobre um Milagre.
O Milagre de 2024.
O que é que acontece se, no mesmo ano, juntarmos uma Fadista lisboeta, uma Rapper portuense, duas metades, a fauna à flora, a tradição à revolução, um Fadista (ainda que não saiba que o é) australiano, um Deus selvagem, cavalos a sapos, e o sofrimento à rejubilação?
Para obterem resposta a esta pergunta, basta lerem, de novo, o título deste texto.
Um texto que não pretende fazer qualquer tipo de Top (nada contra, somente não é esse o nosso intuito), até porque não é nossa intenção colocar Artistas em hierarquias, onde uns nomes “valem mais” do que outros…
Acontece que o ano que está prestes a findar, foi riquíssimo em termos de boa Música, tanto nacional como internacional.
A transbordar de nomes, marcantes, como o de Eduardo Cardinho, o dos Club Makumba, o dos IDLES, ou o de Billie Eilish, por exemplo, se bem que poderia citar muitos mais.
Mas não é para isso que aqui estamos, até porque se fossemos por aí, estas linhas não teriam fim à vista, já para não falar que nos estaríamos a contradizer…
Aquilo que nos fez escrever este texto, esta espécie de “mini recap encantado” foi precisamente aquilo (perdoem-me a repetição) que diz o título.
Um Milagre.
Que no meio de tanta qualidade musical, sobressaiu, e de que maneira!
(Ou não fosse um Milagre…)
Levanto, agora, uma pontinha do véu, para anunciar que, tal acontecimento divino, envolve dois álbuns, ambos lançados em 2024, sendo um nacional e outro internacional.
Álbuns de admiração obrigatória.
Dois discos, sobre os quais, já fomos deixando algumas pistas logo naquela primeira interrogação…
Dou-vos mais um par delas: o álbum internacional é assinado por um Senhor, enquanto o nacional é assinado por uma Senhora (ou neste caso duas Senhoras).
E já que assim é, eu vou, propositada e orgulhosamente, ignorar aquela “regra” super antifeminista do “as senhoras primeiro” e vou, só por esse motivo, dar prioridade ao Senhor.
Senhor que dispensa qualquer tipo de apresentação.
Um Senhor que, já há muito tempo, ultrapassou o título que lhe teimo em dar.
Não se trata de um Senhor, trata-se de uma espécie de divindade, com formas humanas, alturas absurdas, fatos pretos, gravatas negras, sapatos enormemente bicudos, e jelly hair.
Talvez por isso o confundamos com um de nós (meros mortais) que, ocasionalmente, temos o privilégio de respirar o mesmo ar que ele, nas várias vezes (não nos podemos queixar!) que passa por Portugal.
Recordando que a última delas ocorreu no dia 27 de Outubro na Meo Arena em Lisboa.
Falo, claro, de Nick Cave.
E do seu “WILD GOD”.
Um álbum, não diria de uma beleza rara, porque o nível de “beleza rara” já é algo que quase assumimos de Nick Cave e dos seus Bad Seeds.
Diria, mais, que é um álbum de uma beleza diferente.
Pelo menos, diferente daquilo a que nos tem vindo a (tão mal) habituar ao longo dos anos.
Um disco que à primeira vista não nos parece ser conceptual, pela diferença evidente de “estilos” quer musicais, quer poéticos entre as várias faixas, mas que após uma escuta mais atenta, lá nos apercebemos de que há, realmente, algo de conceptual neste disco.
Algo que (sentimentalmente e não só) o liga tanto ao “Ghosteen” (2019) que, para esta que vos escreve, é só uma das maiores relíquias musicais de todo o sempre.
(Fasquia baixa portanto…)
“WILD GOD” é um crescendo de Magia, que começa com narrativas mais descritivas e melodias mais acústicas (ouvimos muitas cordas, muita guitarra) nos primeiros temas, sendo que, à medida que vamos progredindo no disco, tudo se vai tornando mais familiar, mais “moderno” se lhe quisermos assim chamar, notando-se, claramente, uma mudança para uma Poesia mais metafórica, mais rica, mais preenchida, mais densa, mais pesada e luminosa ao mesmo tempo.
(Ou não estivéssemos a falar de Nick Cave…)
Enquanto, que, a acompanhar as palavras de sua divindade, ouvimos também uma mudança de sonoridades: não será totalmente verdade, mas quase que nos faz parecer que quanto mais desbravamos o álbum, mais Warren Ellis vai aparecendo – e, tal como já é seu costume – dando, cada vez mais de si.
Das dez faixas que compõem este trabalho de estúdio, de Nick e companhia, destacaria duas (ou três, neste caso) de audição absolutamente obrigatória.
“Joy” que fica ali quase quase a metade do disco. Quarta faixa. Magistral! Daqueles “hinos” que só Nick sabe fazer. Mais ninguém neste mundo seria capaz de fazer nascer este tema. Só ele!
Seis minutos e alguns segundos de elevação musical divina pura. Uma confissão, em forma de canção, uma confissão bastante sofrida, de um Pai que perdeu (trágica e inacreditavelmente por mais do que uma vez) aquilo que nenhum Pai, alguma vez deveria perder: um Filho.
Nick apresenta-se, sem qualquer pingo de pudor, mas com toda a coragem possível e imaginária (é preciso muita coragem para lançar um disco assim!) completamente a nu, expondo, a quem queira ouvir, todas as suas fragilidades, todos os seus fantasmas e demónios, rogando (over and over again) por misericórdia.
Acabando por ter de ser consolado (ou resgatado, conforme a perspetiva), pelo próprio filho que lhe proclama (afinal é seu filho…) a seguinte relíquia de verso: “we’ve all had too much sorrow, now it’s the time for Joy”.
Uma frase que, para mim, faz o álbum todo.
É impossível ficar imune a esta Música.
Impossível
Pecado mesmo!
Depois de tamanha beleza, vêm duas faixas seguidas (que eu aqui junto como uma una, apenas, e só, pelo fator conceptualildade) que dão pelo nome de “Final Rescue Attempt” e “Conversion”.
Praticamente nove minutos, em algo semelhantes aos anteriores, mas que de uma certa fora os sucedem cronologicamente (não só no seguimento material do disco, mas na “história” que nos vai narrando).
Quase como se “Joy” tivesse sido uma introdução, um respirar bem fundo, um encher de coragem para o que aí vinha:
A derradeira tentativa de salvação, sob a forma de conversão.
Uma conversão que, aconteceu, debaixo de tempestuosas chuvas e ventos, enquanto Nick observava as chamas e o mar.
Uma conversão que o destruiu e construiu ao mesmo tempo.
Peço desculpa por me estar a repetir, but once again, temos nestas duas faixas, dois clássicos exemplos daquela prática, tão única, que só mesmo o Nick Cave, consegue, tão brilhantemente, fazer.
Tomar seus os sentimentos mais infelizes do mundo, sofrê-los na pele, depois enfrentá-los, e trabalhá-los, para finalmente, como que por Magia, os transformar na mais pura das belezas.
Somos mesmo uns privilegiados por estarmos a coabitar o mesmo planta, e a viver no mesmo tempo deste Senhor…
Perdão, desta divindade!
Deste Deus Selvagem.
E como o melhor fica sempre para o fim, eis que nos viramos, agora, para o disco nacional, que, revolucionou por completo a Música portuguesa, não só de 2024, mas quiçá, de sempre.
Afinal não é todos so dias que uma Fadista canta um álbum, todo ele, escrito por uma Rapper…
Sim.
Leram bem!
Aldina Duarte (Fado) dá voz a Capicua (Poesia) ao longo de onze faixas, que é como quem diz, onze “mini-revoluções” (algumas mais literais do que outras…) que compõem um disco, ao qual deram o nome de “Metade-Metade”.
Um disco que, se refletirmos um pouco, não é assim tão diferente daquele que ainda há pouco prezava.
Pode mudar o idioma e as temáticas abordadas, mas no que toca à profundidade, à beleza, e, principalmente, no que toca à emoção, tenho a sorte, e o privilégio, de estar, neste texto, a escrever sobre duas Almas (Aldina e Nick entenda-se) quase espelhadas de tão iguais que são (apesar da distância física que os separa).
Ou não fossem os dois Fadistas dos pés à cabeça…
Se bem que, o Nick que me perdoe, please, aquilo que estou prestes a escrever, mas, talvez, o “Metade-Metade” consiga, ainda, ir, a meu ver, um (bom) bocado mais além.
Porque, a acrescentar a todos os aspetos estéticos que acima enumerei, da beleza, e da intensidade (relembro que é de Aldina Duarte que estamos a falar…) este álbum consegue carregar temas tão fortes, tão importantes, e até por vezes incómodos, tudo isto enquanto equilibra (sem cair, muito pelo contrário!) dois estilos musicais tão diferentes, quase opostos, (e ao mesmo tempo tão iguais) com uma mestria verdadeiramente impressionante.
Mergulhemos, então, agora, um pouco mais fundo neste “Metade-Metade”…
Na sua essência, segundo a própria Aldina, este é um disco (quase de cariz social se pensarmos bem…) que aborda temas como a pobreza, a despreocupação governamental com as questões das alterações climáticas, e a Liberdade (ou falta dela). Disco no qual ouvimos palavras como fauna e flora, aprendiza, gaiola, terra molhada, fome e majestade, medo, páginas de um livro, tentativa, mãe e avó, serra, ou Poema.
Mas, para além das pertinentes questões que acima enumero, que tanto Aldina como Capicua, descrevem e defendem tão brilhantemente nestes onze Fados, a meu, humilde, ver, este álbum explora mais temáticas (ainda que subjacentemente) do que essas. Pelo menos a mim, este disco sugere-me, ainda, mais umas quantas palavras…
Já que não o entendo como um disco, mas como uma gigante ousadia, um enorme grito feminista, e, ainda, uma valente lição de inclusão.
Em “Metade-Metade” cabe tudo e tod@s.
Ou melhor ainda, respeita-se tudo e tod@s.
Um disco que dignifica tanto o arvoredo, como a multidão, respeita, imensamente, o passado, assim como o futuro, e celebra o mar e a praia, a Liberdade e a Arte como ninguém.
Escolher apenas uma ou duas (que seja!) faixas de audição obrigatória, neste disco, implicaria uma difícil decisão, mas sobretudo uma situação bastante inglória, para as restantes faixas…
Por isso não o farei.
Escolho, dentro deste disco tão especial, três Fados de escuta obrigatória.
O primeiro, o último, e o sexto.
“Araucária” abre o “Metade-Metade” de uma forma, absolutamente imponente, já que é um belo exemplo daquelas “mini-revoluções”, que falei, lá mais acima, pelo que é, espantem-se, um Fado à Harpa.
Nesta ode a uma árvore ancestral, existem, a voz de Aldina (que é que quem lhe dá toda a carga sentimental), a Poesia de Capicua (que consegue, aqui, operar o milagre de fazer parecer que palavras como “totem” ou “borrasca” sempre fizeram parte do léxico do Fado Tradicional), e a Harpa de Ana Isabel Dias, que (a Aldina e a Capicua me perdoem) é a verdadeira estrela deste tema inaugural.
Sendo ela quem proporciona, ao Fado, toda a sua Magia musical, com as suas inúmeras cordas, que Ana vai dedilhando, ora mais singela, ora mais duramente, de uma forma quase cintilante de tão encantadora.
Saltemos, agora, o disco inteiro, para nos deliciarmos com outra “mini-revolução”.
Chama-se “Eterno Retorno” o Fado que fecha este álbum.
E como se esse título não chegasse já para nos deixar arrepiadas, devo acrescentar, que este é, espantem-se de novo, um Fado ao Piano.
Um Fado, com tanto de surpreendente como de sombrio, cortesia de Joana Sá, que é quem concede a esta revolução em forma de Música, a sua Alma, usando, para tal, as teclas e cordas do seu Piano.
Instrumento, que tal como a harpista, manuseia, ora melodiosa e gentilmente, ora mais grave e densamente, mas sempre com o mesmo fervor.
No que toca à sua mensagem, este Fado ensina-nos a amar (ou odiar, nem interessa muito, o sentimento, pelo qual se opte, na verdade, desde que o façamos intensamente) a Poesia, curiosamente, usando-se do seu próprio Poema.
Poema esse que nos presenteia com duas pérolas muito especiais.
Uma espécie de (madre)pérolas…
São elas: “o poema existe apesar do gosto, mas nunca viverá sendo indiferente” e “se foi pela metade, então foi tudo em vão”.
Lições valiosas!
Obrigada, Capicua!
E assim, refrescando-nos uma última vez, fechamos o leque das revoluções.
Mas ainda que fechado, não o esquecemos, por isso perdoem-me, só mais esta vez, pela repetição, mas tem mesmo de ser…
(O espanto a isso o obriga…)
Abrir um disco com um Fado à Harpa!
Fechar um disco com um Fado ao Piano!
Isto não é para todos…
É só para algumas!
(E não, senhores, não me estou a contradizer com estas palavras…)
As Senhoras sabem bem daquilo que estou a falar…
Tivéssemos nós a grandeza delas, e era nosso o seu altar…
Dito isto, corramos quase meio álbum para trás, até encontrarmos o Fado “mais Aldina” de todos os Fados que compõem este “Metade-Metade”.
Daqueles que nos fazem esquecer que quem os escreveu foi uma Rapper…
E, atenção, preparem bem o vosso espanto: este é, novamente, um Fado à Harpa!
“A Dúvida” (título que parece que quase nos grita o nome de Amália) faz-nos lembrar, em tudo e mais alguma coisa, o disco do Nick Cave.
Lá está… Almas iguais dá nisto…
Um Fado introspetivo, um Fado inseguro, um Fado assumidamente frágil, em que, ao longo de cinco “penosos” minutos (para a Aldina, não para nós!) é dissecada e exposta a dúvida existencial, que os fãs mais antigos da Fadista sabem, não ser um tema recente, de todo, que é o tema da autovalidação.
O medo (que a acorda sempre cedo) – bendita Capicua e a sua linda Poesia – de não ser suficiente.
(Seja lá o que isso for…)
Daqueles Fados que são em si uma perfeita contradição, pois nós (público) adoramos ouvir, mas preferíamos mil vezes, que não tivessem, ainda, de existir.
Porque, para nós, essa dúvida, resume-se, exatamente a isso…
Uma dúvida.
Agora, que este disco foi aquele que mais nos surpreendeu nos últimos doze meses, isso, já é uma certeza…
Ou não fosse todo ele uma verdadeira e comovente Revolução Poética.
Uma inabalável ambição que não se deixa calar pelo medo.
Um disco que apetece tatuar.
Termino, este texto, com uma última confissão: o porquê de eu ter feito tanta questão de o escrever, agora, mesmo mesmo antes de 2024 terminar.
É que não é todos os dias que isto acontece…
Estes dois nomes, tão grandes, lançarem álbuns, precisamente, no mesmo ano.
Já aconteceu antes, verdade, mas ainda assim…
É como se fosse um cometa a passar!
Quando estas duas Almas (geograficamente tão distantes, mas emocionalmente tão iguais) lançam, cada uma o seu disco, no mesmo ano, o Mundo pode não mudar…
Pode continuar estranho, perigoso, doente, intolerante e conflituoso.
Mas, pelo menos, fica, garantidamente, dois bocadinhos, que seja, mais bonito.
? Mariana Couto


