Na ModaLisboa Priority, Mestre Studio e Arndes apresentaram duas propostas que partem de universos conceptuais distintos para refletir sobre a forma como construímos a nossa identidade. Em “SONHOS DE MENINO”, a memória, a infância e a ligação afetiva à figura da avó dão origem a uma narrativa profundamente pessoal. Já “IRREAL SOCIAL”, de Arndes, questiona os códigos de comportamento e as imagens que a sociedade contemporânea constrói para definir o que significa pertencer. Duas perspetivas que encontram na moda um meio de explorar aquilo que somos, aquilo que recordamos e aquilo que mostramos ao mundo.
Com “SONHOS DE MENINO”, Mestre Studio parte de uma viagem íntima às recordações da infância, explorando a forma como o tempo transforma as experiências vividas em imagens que oscilam entre a memória e o sonho. A coleção recupera uma visão idílica de um passado que, com os anos, ganha contornos quase imaginários, onde os acontecimentos se misturam com as emoções e com aquilo que escolhemos guardar.
No centro desta narrativa está a casa da avó, lugar de crescimento, descoberta e nascimento de muitas das primeiras paixões do criador. Foi nesse espaço familiar que começaram a formar-se sonhos ainda sem nome, num quotidiano feito de pequenos gestos e de uma presença que permanece marcante mesmo depois da sua ausência.
A figura da avó surge retratada através de uma imagem carregada de identidade: as mãos enrugadas pelo tempo e pelo trabalho, as roupas pretas, os brincos de ouro, o cabelo escondido por um lenço e o xaile de lã sobre os ombros. Em contraste, aparece a imagem do menino, com camisolas às riscas, roupas largas, ténis gastos, calções curtos e cores garridas. De um lado, a experiência, o cuidado e o trabalho; do outro, a espontaneidade, a brincadeira e a descoberta.
Estas duas figuras, aparentemente opostas, encontram-se numa relação de complementaridade que constitui o coração da coleção. Enquanto a avó cuidava, o menino sonhava. Entre ambos existia uma ligação construída através de gestos quotidianos, de uma presença protetora e de um espaço onde a imaginação podia crescer livremente.
É a partir deste contraste que Mestre Studio desconstrói e reconstrói referências visuais associadas às duas figuras. Silhuetas, volumes, proporções e materiais são reinterpretados, cruzando elementos da roupa da avó com referências ao vestuário infantil. Algumas formas repetem-se, outras ampliam-se ou são desconstruídas, mantendo, ainda assim, uma familiaridade que remete para as imagens que estão na origem da proposta.
A oposição entre o preto e a cor, entre a roupa associada à idade e aquela que acompanha a infância, transforma-se numa ferramenta de expressão. Mais do que reproduzir referências do passado, a coleção procura traduzir as sensações que delas permanecem, permitindo que as memórias ganhem novas formas através do vestuário.
A ausência da avó confere a “SONHOS DE MENINO” uma dimensão particularmente emotiva. A perda não apaga as recordações; pelo contrário, torna-as mais presentes e reforça a necessidade de preservar aquilo que ficou. A coleção assume-se, assim, como uma homenagem à mulher que marcou a infância do criador e ao lugar onde nasceram muitos dos seus sonhos.
Entre a saudade e a imaginação, Mestre Studio constrói uma narrativa em que a roupa se transforma num arquivo afetivo. “SONHOS DE MENINO” recorda que a identidade também se forma a partir das pessoas que nos acompanham, dos espaços onde crescemos e dos pequenos momentos que, com o passar do tempo, adquirem um significado maior.
Em “IRREAL SOCIAL”, Arndes desloca o olhar da memória individual para o funcionamento da sociedade contemporânea, explorando a tensão entre aquilo que somos e a imagem que aprendemos a representar para sermos aceites. A coleção parte da ideia de que a vida social funciona como um palco, onde cada indivíduo constrói e ajusta a sua presença perante os outros.
Nesta leitura, a identidade deixa de ser entendida apenas como uma expressão interior e passa também a depender de códigos visuais, tendências, símbolos de estatuto e comportamentos associados à pertença a determinados grupos. A forma como nos apresentamos torna-se parte de um sistema de expectativas, no qual a aparência pode funcionar como um instrumento de reconhecimento e aceitação.
Arndes questiona, assim, a construção de um ideal coletivo que é apresentado como realidade, mas que resulta, muitas vezes, de imagens fabricadas e de referências socialmente valorizadas. O que parece ser uma escolha individual pode estar condicionado pela necessidade de corresponder a padrões externos, reproduzindo modelos que prometem integração e reconhecimento.
O título “IRREAL SOCIAL” sintetiza esta contradição: aquilo que a sociedade apresenta como desejável nem sempre corresponde a uma verdade pessoal. Entre a autenticidade e a representação, cada indivíduo procura encontrar o seu lugar, num equilíbrio delicado entre a vontade de se expressar e a pressão para corresponder às expectativas dos outros.
Neste contexto, a moda assume um papel central enquanto linguagem visual. A roupa participa na construção da imagem pública, comunica referências e pode transmitir sinais de pertença, prestígio ou diferenciação. Ao colocar estes mecanismos em discussão, a proposta de Arndes convida a olhar para além da superfície e a questionar os significados atribuídos àquilo que vestimos e à forma como nos mostramos.
A coleção abre espaço para uma reflexão sobre a fronteira entre expressão pessoal e representação social. Até que ponto a imagem que projetamos corresponde àquilo que sentimos ser? E em que medida as nossas escolhas são influenciadas por ideais que aprendemos a reconhecer como desejáveis? Estas questões atravessam “IRREAL SOCIAL”, dando à proposta uma dimensão crítica que ultrapassa o objeto de moda.
Mais do que apresentar uma resposta definitiva, Arndes coloca em evidência as contradições de uma sociedade que incentiva a individualidade, mas que simultaneamente estabelece códigos para determinar o que é aceite, valorizado ou aspiracional.
Duas narrativas, diferentes formas de olhar a identidade
Na ModaLisboa Priority, Mestre Studio e Arndes exploraram diferentes dimensões da experiência humana através de duas coleções marcadas pela força do conceito. Em “SONHOS DE MENINO”, a identidade nasce da memória, dos laços familiares e das experiências que permanecem connosco. Em “IRREAL SOCIAL”, é colocada em confronto com as imagens e os códigos que a sociedade constrói e transmite.
Se Mestre Studio transforma a roupa numa homenagem às origens e à presença duradoura de quem nos ajudou a crescer, Arndes utiliza a moda como ponto de partida para questionar as convenções que influenciam a forma como nos apresentamos ao mundo.
Duas propostas distintas que demonstram como a criação contemporânea pode partir tanto da intimidade como da observação social para construir narrativas com significado. Entre aquilo que guardamos e aquilo que mostramos, a moda afirma-se, aqui, como um espaço de memória, questionamento e descoberta da identidade.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


