Marques’Almeida leva o espírito da liberdade à passerelle do Portugal Fashion Experience

Há coleções que se observam e outras que se vivem. A proposta apresentada por Marques’Almeida no Portugal Fashion Experience 2026 pertence à segunda categoria. Inspirada na cultura club e na efervescência das raves britânicas dos anos 90, a coleção Primavera/Verão 2026 transformou a passerelle num espaço onde a moda se cruza com a música, a identidade e a liberdade de expressão.

Sem cair no exercício da nostalgia, a dupla criativa recuperou a energia de uma geração que encontrou nas pistas de dança um lugar de afirmação e pertença. Esse espírito refletiu-se numa sucessão de coordenados que privilegiaram o conforto, o movimento e uma atitude descomprometida, revelando uma visão contemporânea sobre um imaginário que continua a influenciar a cultura visual dos nossos dias.

As silhuetas surgiram descontraídas, com volumes amplos e proporções inesperadas, criando uma sensação de espontaneidade que acompanhou toda a apresentação. As peças pareciam desenhadas para acompanhar o corpo em movimento, privilegiando a fluidez e uma relação natural entre quem veste e o espaço que ocupa.

Fiel ao ADN da marca, a ganga voltou a assumir um papel central, reinterpretada através de novas construções e combinada com tecidos mais leves, criando um interessante diálogo entre robustez e delicadeza. O resultado foi um guarda-roupa versátil, onde a desconstrução continua a ser um elemento distintivo, mas sem perder uma leitura prática e contemporânea.

Mais do que recuperar referências estéticas de uma época, Marques’Almeida procurou traduzir o ambiente que definiu toda uma cultura. A coleção evocou o sentimento de comunidade, a liberdade criativa e a autenticidade que marcaram o universo das raves, demonstrando como esses valores permanecem atuais numa sociedade onde a individualidade continua a assumir um papel determinante.

Ao longo do desfile, tornou-se evidente que a proposta não procurava impressionar através do excesso, mas antes construir uma narrativa consistente, onde cada coordenado contribuía para um discurso coeso sobre identidade e expressão pessoal. A música, o ritmo e a atitude pareciam prolongar-se para lá da passerelle, reforçando a ideia de que a moda também pode ser uma forma de viver experiências e criar ligações.

Com esta apresentação, Marques’Almeida voltou a afirmar a capacidade de transformar referências culturais em coleções relevantes para o presente.

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🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

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