Quando a noite já tinha tomado conta do MEO Kalorama 2026, Grace Jones surgiu em palco e trouxe consigo décadas de irreverência, provocação e liberdade artística. A presença da artista jamaicana-americana mudou imediatamente a escala do primeiro dia, transformando o concerto num espetáculo onde música, moda, performance e atitude se encontraram.
Grace Jones nunca foi apenas uma cantora.
Ao longo de uma carreira construída contra expectativas, tornou-se uma figura incontornável da cultura pop, capaz de atravessar fronteiras entre a música, a moda e a performance sem pertencer completamente a nenhuma delas. Em Lisboa, essa personalidade esteve presente em cada movimento.
A voz grave e inconfundível encontrou uma banda preparada para acompanhar uma atuação que não vive de fórmulas. Funk, disco, reggae, new wave e eletrónica cruzaram-se numa experiência sonora tão dançável quanto teatral.
Mas era impossível olhar apenas para a música.
A imagem de Grace Jones ocupava o palco por completo. Os figurinos, a postura e a forma como se movimentava transformaram cada entrada num momento de afirmação. Havia teatralidade, mas também uma enorme consciência do próprio corpo e da própria presença.
Entre dança, aplausos e olhares atentos, o recinto tornou-se parte do espetáculo. Grace Jones não procurou simplesmente conquistar a plateia; desafiou-a a acompanhá-la para um território onde as regras pareciam não existir.
E talvez seja essa a sua maior força.
Décadas depois de ter começado a construir uma das imagens mais singulares da música, continua a apresentar-se como uma artista que não aceita ficar parada num único lugar.
No MEO Kalorama, essa liberdade ganhou uma nova casa.
Depois da atmosfera sombria dos Interpol, a madrugada abriu-se para uma explosão de cor, ritmo e personalidade. O contraste não podia ser maior, mas também não podia ser mais adequado à identidade de um festival que procura precisamente cruzar mundos diferentes.
Grace Jones não entrou simplesmente em palco.
Tomou conta dele.
E lembrou Lisboa de uma coisa que continua a saber fazer melhor do que quase ninguém:
transformar a própria existência numa obra de arte.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


