Na ModaLisboa Priority, Gonçalo Peixoto apresentou “RECORDAÇÕES DO FUTURO”, a sua coleção para a primavera/verão 2027, uma proposta que parte de uma reflexão íntima sobre a identidade, a passagem do tempo e os laços emocionais que permanecem ao longo da vida. Mais do que uma viagem ao passado, esta coleção abre um espaço de questionamento sobre quem somos, para onde caminhamos e aquilo que fica quando tudo à nossa volta se transforma.
Depois de explorar a Inteligência Artificial na coleção anterior, o criador direciona agora o olhar para um território profundamente humano: a memória. Num presente em que o futuro pode parecer estranho e imprevisível, Gonçalo Peixoto encontra nas recordações uma forma de conforto, sem procurar regressar a um tempo que já não existe. O passado não pode ser recuperado tal como foi vivido, mas pode ser revisitado através das imagens, das emoções e das pessoas que continuam a fazer parte de nós.
O ponto de partida para esta narrativa foi uma fotografia da mãe do criador. Uma imagem que ultrapassa o seu valor documental para se transformar numa origem emocional, capaz de orientar toda a construção da coleção. É a partir dessa presença que se desenvolve uma reflexão sobre a família, o amor e a sensação de pertença a um lugar que permanece casa, independentemente das mudanças que o tempo traz.
A memória surge, assim, não como uma tentativa de recuperar o que ficou para trás, mas como uma forma de compreender o presente e imaginar aquilo que ainda está por vir. Há recordações que não desaparecem, imagens que continuam a acompanhar-nos e afetos que resistem à passagem dos anos. Em “RECORDAÇÕES DO FUTURO”, estes elementos tornam-se matéria criativa, dando origem a uma proposta que cruza nostalgia e reinvenção.
Na dimensão material, a coleção recupera referências associadas a esse universo de recordações, através de organzas estampadas e lãs que dialogam com alguns dos elementos mais característicos da linguagem de Gonçalo Peixoto. As flores, presença recorrente no trabalho do designer, voltam a assumir protagonismo, acompanhadas por musselinas e lantejoulas que acrescentam leveza, textura e luminosidade às peças.
O encontro entre estes materiais cria um jogo de contrastes que acompanha a própria ideia central da coleção. A delicadeza das organzas e das musselinas cruza-se com a presença das lãs, enquanto as superfícies luminosas introduzem uma dimensão contemporânea num universo marcado pela memória. O resultado procura estabelecer uma ligação entre diferentes tempos, sem ficar preso a uma estética exclusivamente nostálgica.
As silhuetas refletem igualmente esta dualidade. Entre referências que evocam o passado e construções que apontam para o futuro, as peças acompanham uma mulher em constante crescimento, que se transforma sem perder a ligação àquilo que a define. A feminilidade surge através de uma linguagem que combina delicadeza, expressividade e movimento, mantendo a identidade visual que caracteriza o trabalho do criador.
As flores, as transparências e as lantejoulas não funcionam apenas como elementos decorativos. Participam na construção de uma narrativa em que a roupa se transforma num espaço de expressão emocional. Cada material e cada detalhe contribuem para esse diálogo entre aquilo que recordamos e aquilo que escolhemos levar connosco para o futuro.
Em “RECORDAÇÕES DO FUTURO”, Gonçalo Peixoto propõe também uma reflexão sobre a capacidade de reimaginar o caminho. As memórias não devem impedir a transformação, mas podem ajudar a compreender de onde vimos e aquilo que queremos preservar. A coleção encontra precisamente nesse equilíbrio a sua força conceptual: avançar sem apagar as marcas do passado, aceitar a mudança sem perder a ligação à nossa essência.
A presença da fotografia da mãe como ponto de partida reforça a dimensão pessoal da proposta, mas abre espaço a uma leitura universal. Todos transportamos imagens, gestos e afetos que moldam a nossa identidade, mesmo quando não conseguimos explicar inteiramente a sua influência. São esses fios invisíveis que ligam as experiências vividas às escolhas do presente e às possibilidades do futuro.
Na ModaLisboa Priority, “RECORDAÇÕES DO FUTURO” apresentou uma nova etapa na exploração criativa de Gonçalo Peixoto, aproximando a moda de uma reflexão sobre o tempo, a memória e a condição humana. Entre organzas estampadas, lãs, flores, musselinas e lantejoulas, o designer constrói um universo onde passado e futuro deixam de ser territórios opostos e passam a coexistir numa mesma linguagem.
Porque o futuro não exige que esqueçamos aquilo que fomos. Exige, antes, que encontremos novas formas de continuar a ser, preservando os afetos e as experiências que nos definem. É nessa possibilidade de transformação, sem perda de humanidade, que Gonçalo Peixoto encontra o sentido de “RECORDAÇÕES DO FUTURO”.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


