A 37ª edição dos Festivais Gil Vicente realiza-se de 5 a 14 de junho em Guimarães, e apresenta obras de criadoras e criadores que abrem caminho a outras perspetivas de interpretar e construir o (nosso) mundo, prosseguindo a trajetória da deteção e afirmação do novo talento geracional, da renovação teatral do país, e a propor, no seu programa, um olhar crítico sobre as novas formas de representação desta arte que reflete e interpela a sociedade de modo permanente: o teatro.
Para além de duas estreias absolutas (Era Rolim e Gaya de Medeiros com Ary Zara), resultantes da atribuição das bolsas de criação Amélia Rey Colaço e Projeto CASA, a importância desta edição pode ser justificada pelo regresso de Pedro Gil às encenações com um elenco talentoso, por (re)descobrirmos Pedro Nunes cuja peça esteve em processo de residência no Centro de Criação em Candoso, por constatarmos o crescimento da visão artística de uma criadora vimaranense (Rita Morais), ou por viajarmos por Shakespeare de um modo absolutamente surpreendente pela mão de Marco Paiva.
Mas os Festivais Gil Vicente são muito mais que a soma dos seus espetáculos, interligando-se com um programa que integra oficinas de formação, debates, momentos de interação do público com os artistas e exercícios de visão crítica cruzada, capazes de fazer movimentar a comunidade artística e a população em torno de uma prática há muito enraizada no território. Em junho encontramo-nos nos auditórios, foyers e sala de ensaios (CCVF), no museu (CIAJG), ou no salão nobre (Teatro Jordão). E, também, em todos os espaços comuns que fazem o teatro respirar como nunca.
Esta edição tem pontapé de saída marcado para a quinta-feira 5 de junho com a estreia absoluta de “Se Não For Tu”, de Era Rolim, um dos projetores vencedores da 3ª edição do Projeto CASA – iniciativa d’A Oficina (através do Centro Cultural Vila Flor), d’O Espaço do Tempo e do Cineteatro Louletano que procura incentivar a experimentação e a emergência de novas linguagens cénicas, apoiando a renovação do tecido artístico nacional. Esta coprodução é uma obra coreocinematográfica que transita entre o teatro e o cinema. A trama acompanha Sueli, uma mulher marcada pela perda trágica dos pais num acidente de carro, um acontecimento que a deixou com uma obsessão: saber o que aconteceu nos 30 segundos que antecederam a fatalidade. Na sua busca por respostas, Sueli dorme e mergulha em universos surreais, onde os seus dilemas éticos e psíquicos são desafiados a cada passo.
“Corre, bebé!”, de Ary Zara e Gaya de Medeiros, é apresentado em estreia absoluta na sexta-feira 6 de junho, sendo o projeto vencedor da 7ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço, uma iniciativa d’A Oficina (através do Centro Cultural Vila Flor), do Teatro Nacional D. Maria II, d’O Espaço do Tempo e do Teatro Viriato. “Corre, bebé!” é um conjunto de reflexões sobre os conflitos e desejos da parentalidade. Um casal de pessoas trans, situadas num cenário pós-apocalíptico pensa sobre o que pode ser gerar bebés nesse contexto. Expetativas, problemas conjunturais e inseguranças são abordados de forma poética, desenhando os receios e sonhos que podem surgir ao acompanhar o desenvolvimento de uma nova pessoa num futuro incerto. No final do espetáculo, o público terá a oportunidade de se juntar aos artistas numa conversa informal e em discurso direto. Estas duas novas criações, resultantes das bolsas de criação, vão estar em residência artística prévia no Centro de Criação de Candoso (CCC), em Guimarães.
Entrando com entusiasmo no fim de semana, no sábado 7 de junho, a “Enciclopédia da vida sexual”, com texto e encenação de Pedro Gil, cocriada e interpretada por Ana Isabel Arinto, Danilo Da Matta, Diogo Andrade, Katrin Kaasa, Mário Coelho, Pedro Gil, Raquel Castro, Sara Inês Gigante e Tânia Alves (Voz Off), fecha a primeira ronda de espetáculos com esta peça de artesanato cómica. Nesta obra, a protagonista tinha prometido a si mesma que não voltaria a acontecer, mas aconteceu. Apaixonou-se de morte por um monogâmico convicto e, com receio de o perder, omite-lhe que é poliamorosa. Mas isso não bastará. Terá também de contar com a cumplicidade da sua família e amigos, que a tentam ajudar, o mais que podem. A apresentação desta peça conta igualmente com uma conversa pós-espetáculo com o criador Pedro Gil, sendo todo o público convidado a participar na mesma.
Após um pequeno salto entre espetáculos para a quinta-feira 12 de junho, os Festivais Gil Vicente ganham novo fôlego para nos apresentar a “Matriarca ‘74”, de Pedro Nunes, uma peça que é uma conversa entre uma avó e um neto – uma atriz e um ator –, sobre o poder revolucionário da voz, da escuta e do silêncio. Sobre o feminismo de uma mulher septuagenária, um Abril por cumprir, as dinâmicas próprias a uma família de artistas e os medos do amanhã. Com texto e interpretação de Isabel Passarito e Pedro Nunes, convoca-se o tempo da calma e dos abraços, numa diluição performativa da ficção com o autobiográfico. Pedro Nunes foi um dos cinco artistas selecionados pelo programa “Artistas Douro” da mala voadora, que contou com o apoio d’A Oficina e o financiamento da Câmara Municipal do Porto.
O caminho desta edição segue com “Viagem a Lisboa”, de Joana Cotrim e Rita Morais, uma coprodução A Oficina/Centro Cultural Vila Flor e Teatro-Cine de Pombal, que nos chega na sexta-feira 13 de junho. Interpretado por Fernando Nobre, João Pedro Vaz, Joana Cotrim, Miguel Nunes, Mónica Garnel, Rita Morais, este é um espetáculo que procura aprofundar, através de uma narrativa ficcional, o contexto histórico do passado familiar das artistas, a partir de um texto original de Isabela Figueiredo em diálogo com o álbum “Diz À Mãe Que Está Tudo Bem” do músico Silk Nobre. Neste espetáculo-concerto, a família surge como contexto nuclear para abordar tensões sociopolíticas, como o colonialismo, o racismo e a experiência dos “retornados”. Após o fim deste espetáculo, Joana Cotrim e Rita Morais juntam-se com o público para um novo momento de partilha que coloca a todos em contacto direto para uma conversa em torno desta criação.
Esta celebração do teatro culmina de forma imperiosa no sábado 14 junho com “Ricardo III”, de Marco Paiva. Neste espetáculo, inspirado em William Shakespeare, o encenador Marco Paiva transforma o assassinato de Ricardo III na possibilidade de renascimento de um teatro mais diverso, atento e dialogante com outras linguagens e línguas. Parte da bestialidade Humana para encontrar um lugar coletivo mais feliz e parte da não-normatividade física de uma personagem bélica e ego-centrada para defender que a norma pode levar-nos à alienação e à ausência de empatia. Contando com um elenco constituido por Ângela Ibañez, David Blanco, Marta Sales, Tony Weaver, Maria José Lopez e Vasco Seromenho, este espetáculo é interpretado em Língua Gestual Portuguesa e Língua de Signos Espanhola, sendo legendado em Português. Após o desenlace imposto por esta criação, teremos ainda um último fôlego desta 37ª edição dos Festivais Gil Vicente com uma conversa pós-espetáculo que aproximará Marco Paiva do público.
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? Redação / press release
? Bruno Simão


