Nem todos os discos se projetam, há também os que se impõem para lá da vontade mais calculada. Para Real GUNS, cuja discografia é já de si um compêndio de música visceralmente honesta, “Fela” impôs-se talvez como nenhum outro seu antecessor.
Resultado de uma fase na mó de baixo, foi um documentário sobre o incomparável Fela Kuti que despertou em Ovilton Santiago as mais profundas memórias e emoções da sua história de vida. E esse resultado, com os músicos certos do seu lado, concretizou-se em sete canções musicalmente efervescentes e invariavelmente documentais.
Com o pioneiro do afrobeat nigeriano — símbolo maior do uso da música enquanto ferramenta de resistência, consciência social e luta pelos direitos humanos — como referência central ao longo da construção deste trabalho, Fela Kuti não deixa de ser aqui mais bússola do que destino. Inspirado pela irreverência criativa e imaginação sonora do nigeriano, “Fela” cristaliza a mesma frontalidade que sempre fez de Real GUNS uma figura tão singular no hip-hop nacional.
Essa vontade de experimentação livre já vinha a ser deliberadamente procurada entre Real GUNS e MYQUE — fiel aliado do rapper luso-são-tomense ao nível da produção instrumental desde os primórdios de uma já extensa discografia. E em “Fela” toda essa vertigem musical ganha expressão por meio dos instrumentistas que compõem o puzzle sonoro deste disco que cruza uma matriz rap com sonoridades vindas desde o jazz ao afro, passando pelo soul. Graças desde logo a MYQUE na produção executiva, com a guitarra enquanto instrumento de eleição, por sua vez coadjuvado sobretudo por TURU na composição instrumental — com destaque para o seu trompete —, e ainda por Nohighdia e LEOZINHO neste âmbito, sem esquecer também as imprescindíveis participações de Jeeezas no saxofone e Marianne no piano.
Por isso, mais do que um regresso, “Fela” é na verdade um reencontro de Real GUNS com o sítio — tão físico quanto espiritual — onde tudo começou. Aquele onde a música do seu pai tocava à sombra de um mestre incontornável, em que a vocação para escrever a sua própria verdade através da rima se foi instalando muito antes de saber que seria esse o seu desígnio. Sete canções para fixar no tempo uma fase que ficou inevitavelmente marcada na sua memória, e que talvez não pudesse ter sido guardada de outra forma não fosse a banda sonora que a cristalizou. Precisamente porque há discos que se escrevem, e há discos que se devem. E este, GUNS devia-o há muito — a ele próprio, acima de tudo.
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