A noite começava a ganhar outra personalidade no Rock & Dão 2026 quando, David Bruno subiu ao palco em Viseu. Depois de Os Pontos Negros e Cassete Pirata, o festival entrou num território onde a música se cruza com a memória, o humor e uma certa ideia muito portuguesa de kitsch.
Natural de Vila Nova de Gaia, David Bruno construiu uma linguagem artística difícil de confundir. Entre sampling, rimas, instrumentos e uma estética assumidamente pitoresca, o artista olha para o quotidiano suburbano e transforma referências aparentemente banais em matéria para canções que tanto fazem sorrir como pensar.
O Grande Porto e o Douro Litoral são presença constante nesse universo. Lugares, personagens, hábitos e pequenas histórias do dia a dia ganham uma nova dimensão quando passam pelo filtro criativo de David Bruno. Há humor, mas também existe carinho por aquilo que retrata. A sátira nunca apaga a proximidade com as pessoas e os lugares que servem de inspiração.
Essa capacidade de transformar o familiar em algo inesperado esteve no centro da atuação. O público encontrou um concerto que não vive apenas da música, mas também de uma estética própria, construída ao longo de vários projetos e consolidada através de uma discografia que inclui trabalhos como “4400 OG”,” O Último Tango em Mafamude”, “Miramar Confidencial”, “Raiashopping” e “Paradise Village”.
David Bruno é também um artista que nunca se limitou a uma única linguagem. A produção musical, o trabalho enquanto realizador e projetos como “Sangue & Mármore” mostram uma vontade permanente de cruzar formatos e contar histórias através de diferentes meios.
Depois de uma pausa anunciada em 2023, o regresso aos palcos trouxe novamente essa necessidade de comunicar através da música. Singles como “Fruta Feia” acompanharam uma nova fase de atividade, devolvendo David Bruno a um circuito de festivais onde a sua proposta encontra naturalmente públicos disponíveis para descobrir outras formas de contar Portugal.
No Rock & Dão, a sua presença acrescentou uma nova camada ao primeiro dia. Se os concertos anteriores tinham mostrado diferentes possibilidades dentro do rock e do indie cantado em português, David Bruno abriu a porta para um território onde hip-hop, cultura popular, eletrónica, humor e memória suburbana convivem sem pedir autorização.
E talvez seja essa a maior particularidade da sua música: conseguir olhar para aquilo que muitas vezes passa despercebido e transformá-lo em protagonista.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


