Gelli Haha apresentou um universo a fechar o primeiro dia do Primavera Sound Porto 2026.
A atuação da artista norte-americana destacou-se precisamente pela recusa em ser definida. Desde os primeiros minutos, tornou-se evidente que a lógica habitual deixaria de funcionar. As fronteiras entre concerto, performance, teatro e instalação artística começaram a dissolver-se até desaparecerem por completo.
No Primavera Sound Porto 2026, Gelli Haha transformou o palco num espaço onde o absurdo e a imaginação coexistiam sem pedir desculpa. As canções surgiam envoltas numa estética colorida, imprevisível e deliberadamente excêntrica, como se alguém tivesse decidido misturar pop, surrealismo e arte performativa dentro do mesmo laboratório criativo.
O resultado foi tão desconcertante quanto fascinante.
Durante grande parte da atuação, a sensação era a de assistir a uma transmissão proveniente de uma realidade paralela. Os movimentos pareciam demasiado calculados para serem espontâneos, mas demasiado estranhos para serem coreografados de forma convencional. As personagens surgiam e desapareciam. As expressões mudavam constantemente de significado. O humor convivia com uma estranha inquietação.
Entre olhares intrigados, gargalhadas espontâneas e momentos de pura perplexidade, o concerto foi conquistando o recinto precisamente porque recusava oferecer aquilo que normalmente se espera de um festival. Em vez de procurar validação imediata, a artista apostou na surpresa constante.
Num panorama musical cada vez mais condicionado por algoritmos, tendências e expectativas de mercado, a atuação de Gelli Haha surgiu como uma celebração do risco. Da possibilidade de criar sem a obrigação de fazer sentido imediato.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


