Em 2021 a atriz e realizadora Ana Cunha convidava o trio Bardino para compor a banda sonora do seu primeiro filme enquanto realizadora, A Traição do Padre Martinho, uma produção da Ukbar Filmes integrada no projeto Contado por Mulheres e transmitida pela RTP. O filme parte de um texto de Bernardo Santareno e passa-se numa pequena aldeia portuguesa no final dos anos 60, onde um jovem padre toma o partido da população, acaba expulso pelo patriarcado e defendido pelo seu povo.
Para um grupo que ao longo de três discos – o EP homónimo (2017), “Centelha” editado pela Saliva Diva (2020), e o “Memória da Pedra Mãe” editado pela Jazzego (2024) – sempre procurou ligar a sua música a lugares e paisagens concretas, a proposta de habitar o universo fechado e carregado de um drama de Santareno representava um desafio de outra natureza. “A Traição do Padre Martinho OST” é o resultado desse encontro.
Os Bardino escreveram a música numa residência artística em Anadia, rodeados pelo laranjal da casa da avó Alice, numa produção deliberadamente lo-fi e guiada pela visão da realizadora. Há uma intimidade neste processo que se transfere para a música, que soa mais despida e próxima do que o habitual no universo do trio. Rui Martins assina a produção, mistura e masterização, além de tocar teclados, Nuno Fulgêncio contribui com bateria e percussão, e Diogo Silva com o baixo, num registo contido que serve a narrativa do filme sem deixar de soar inequivocamente a Bardino.
Ao longo de dez faixas e pouco mais de vinte minutos, o álbum constrói-se como um arco dramático que espelha a estrutura da história. Três peças intituladas “Padre Martinho” funcionam como pilares – um Prelude que abre, um Interlude que marca a viragem, e um Postlude que encerra -, enquanto entre elas surgem as peças dedicadas às personagens e momentos-chave da trama: “Alice”, “Bernardo”, “Albino”, “O Cerco”, “Guarda”, “Escadas“. Cada uma destas composições funciona como um retrato sonoro, breve e essencial, que evoca mais do que descreve.
Quase cinco anos separam a residência artística da publicação deste disco. Esse intervalo, longe de diminuir a relevância do material, dá-lhe uma qualidade particular, como se a música tivesse amadurecido no mesmo silêncio das paisagens que sempre inspiraram os Bardino. “A Traição do Padre Martinho OST” é uma obra que prova que a sua linguagem musical, tantas vezes associada a paisagens abertas e explorações sonoras sem destino definido, pode também habitar o espaço fechado e carregado de um drama humano
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