Bárbara Atanásio e Çal Pfungst exploram identidade e distância na ModaLisboa Priority

Na ModaLisboa Priority, Bárbara Atanásio e Çal Pfungst apresentaram duas propostas que desafiam as fronteiras da perceção e da identidade. Com “FILHO DA MÃE”, Bárbara Atanásio questiona as convenções associadas ao género e a necessidade de categorizar aquilo que somos. Em “ALOOF”, Çal Pfungst mergulha num universo mais abstrato, onde a distância, o tempo e o desaparecimento se tornam matéria de exploração poética. Duas abordagens distintas que encontram na moda um espaço de liberdade, ambiguidade e experimentação.

Com “FILHO DA MÃE”, Bárbara Atanásio propõe uma reflexão sobre as convenções que condicionam a identidade e sobre as fronteiras que a sociedade estabelece entre aquilo que considera masculino e feminino. A coleção parte de uma ideia simples, mas profundamente questionadora: as divisões que nos são apresentadas como naturais podem não passar de linhas imaginárias, aprendidas e reproduzidas ao longo do tempo.

A imagem de uma criança que brinca livremente com brinquedos tradicionalmente associados a meninos e meninas torna-se o ponto de partida para uma abordagem que recusa a obrigação de escolher entre opostos. Antes de serem condicionadas por regras sociais, as possibilidades existem de forma espontânea. É essa liberdade inicial que a criadora procura recuperar, questionando os códigos que transformam a expressão individual num exercício de classificação.

Em “FILHO DA MÃE”, a identidade não precisa de ser explicada, organizada ou reduzida a uma resposta definitiva. A coleção assume a contradição como parte da experiência humana, valorizando a possibilidade de existir entre diferentes referências sem sentir a necessidade de encontrar uma única definição. O indivíduo não é apresentado como uma realidade fixa, mas como um conjunto de possibilidades que coexistem e se transformam.

Num contexto em que a sociedade tende a etiquetar comportamentos, aparências e identidades, esta recusa em fazer sentido segundo regras estabelecidas adquire uma dimensão de resistência. Bárbara Atanásio coloca em causa a necessidade de corresponder a expectativas externas, abrindo espaço a uma expressão mais livre, onde a diferença não exige justificação.

A moda torna-se, assim, um instrumento de questionamento. Vestir deixa de ser apenas uma forma de comunicar pertença a determinada categoria e passa a representar a possibilidade de assumir a própria complexidade. A roupa pode acolher contradições, misturar referências e permitir que cada pessoa encontre a sua linguagem sem ter de escolher um único lado.

A ideia de funcionalidade ganha também um significado particular nesta proposta. Para além da utilidade prática das peças, a coleção sugere que a forma mais essencial de nos apresentarmos ao mundo poderá ser a aceitação daquilo que somos, sem a necessidade de corresponder a uma definição imposta.

Com “FILHO DA MÃE”, Bárbara Atanásio defende a liberdade de existir sem pedir autorização ou procurar uma explicação que satisfaça os outros. A coleção transforma essa posição numa reflexão sobre identidade, autonomia e expressão individual, lembrando que nem tudo o que somos precisa de caber numa categoria.

Em “ALOOF”, Çal Pfungst conduz a moda para um território mais abstrato, construído a partir de sensações de distância, instabilidade e passagem do tempo. A coleção desenvolve-se como uma reflexão poética sobre aquilo que se afasta e regressa, sobre as experiências que nos escapam e sobre a dificuldade de fixar algo que está permanentemente em movimento.

A ideia de distância atravessa a proposta como uma presença subtil. Existe um movimento de aproximação e afastamento, uma relação delicada entre o corpo e aquilo que o rodeia, como se tudo permanecesse suspenso por um fio. A imagem sugere uma ligação que nunca desaparece por completo, mas que também não se mantém estável.

O tempo surge como uma experiência difícil de medir ou controlar. Entre o salto que não recordamos ter dado e o sobressalto provocado por uma mudança inesperada, a perceção do mundo torna-se instável. As coisas acontecem, o tempo avança e, por vezes, a consciência parece chegar depois dos acontecimentos. É nesse intervalo que “ALOOF” encontra o seu território conceptual.

A referência à cronocinese, à ventania e à prestidigitação reforça esta atmosfera de transformação e ilusão. O tempo parece poder alterar-se, o vento escapa às mãos e aquilo que julgávamos reconhecer torna-se fugidio. A coleção aproxima-se, assim, de uma tentativa impossível de conservar o movimento, como quem procura guardar o vento sem que este perca a sua natureza.

Esta dimensão poética abre espaço a uma leitura da moda que ultrapassa a representação direta. Em vez de procurar uma narrativa linear, “ALOOF” constrói-se através de imagens e sensações que permanecem abertas à interpretação. A distância não significa necessariamente ausência, tal como o desaparecimento não implica que algo deixe de existir na memória ou na perceção de quem observa.

A própria ideia de reconhecer alguém pela maneira como desaparece contém uma contradição central: por vezes, é a ausência que torna uma presença identificável. O que fica não é necessariamente uma imagem completa, mas um rasto, um gesto ou uma sensação que permite reconhecer aquilo que já não está diante de nós.

Em “ALOOF”, Çal Pfungst explora precisamente esse espaço entre presença e ausência, permanência e mudança. A coleção sugere que a identidade e a experiência não se constroem apenas através daquilo que mostramos, mas também dos intervalos, das interrupções e das transformações que escapam a uma explicação imediata.

Na ModaLisboa Priority, Bárbara Atanásio e Çal Pfungst apresentaram universos criativos que se aproximam na recusa de respostas definitivas. Em “FILHO DA MÃE”, a contradição é assumida como uma forma legítima de existir, desafiando as categorias impostas pela sociedade. Em “ALOOF”, a instabilidade transforma-se numa linguagem poética para pensar o tempo, a distância e aquilo que permanece quando uma presença se afasta.

Se Bárbara Atanásio reivindica o direito de não escolher entre identidades previamente definidas, Çal Pfungst explora a impossibilidade de manter o mundo imóvel ou de conservar intactas todas as experiências. Ambas as propostas encontram na ambiguidade uma possibilidade de criação, recusando a necessidade de tornar tudo imediatamente compreensível.

Duas coleções que demonstram como a moda pode ser um espaço de reflexão e experimentação, capaz de questionar convenções e transformar ideias abstratas em narrativas autorais. Entre aquilo que somos e aquilo que nos escapa, a ModaLisboa Priority volta a abrir espaço a propostas que procuram novas formas de olhar para o corpo, a identidade e a experiência contemporânea.

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🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

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