Na ModaLisboa Priority, Ariana Orrico e Francisca Nabinho apresentaram duas propostas que partem de universos criativos distintos, mas que encontram um ponto de ligação na atenção ao detalhe, na construção de narrativas pessoais e na forma como a roupa pode comunicar muito para além da sua dimensão estética. Entre a intimidade de uma cidade cheia de contradições e a construção minuciosa de imagens através de pequenos elementos, as duas criadoras exploram diferentes formas de olhar para o quotidiano e transformá-lo em linguagem de moda.
Ariana Orrico apresentou “MUI SNOB E SEMPRE DESLEAL”, uma coleção cujo título estabelece, desde logo, uma relação provocadora com Lisboa. A expressão contraria deliberadamente a designação histórica da cidade, “mui nobre e sempre leal”, propondo um retrato mais irónico, íntimo e contraditório da capital portuguesa. A cidade surge não apenas como cenário, mas como uma presença que influencia identidades, comportamentos e modos de viver.
A coleção parte da relação entre o indivíduo e o espaço urbano, explorando o conforto que nasce quando se abandonam ilusões e expectativas. A casa deixa de estar limitada às suas paredes e prolonga-se pelas ruas, numa aproximação entre o espaço privado e o espaço público. É nesta convivência que Ariana Orrico encontra matéria para construir uma proposta que reconhece a influência mútua entre a cidade e quem a habita.
A criadora assume essa identificação com uma Lisboa snob e contraditória, reconhecendo nas características da cidade um reflexo das suas próprias ambiguidades. Essa relação traduz-se numa linguagem doméstica transportada para o contexto urbano, onde o vestuário confortável ganha um novo significado. Pijamas, robes e peças de loungewear deixam de pertencer exclusivamente ao ambiente privado e passam a integrar uma forma descontraída de habitar a cidade.
Na materialidade, a coleção cruza as lãs da Burel Factory com jerseys de algodão, aproximando texturas e funções habitualmente associadas a diferentes contextos. O ócio atravessa as peças e torna-se parte da sua identidade, desafiando convenções sobre a forma como nos vestimos para ocupar o espaço público. Em “MUI SNOB E SEMPRE DESLEAL”, vestir é também assumir uma relação com o lugar, aceitar as suas contradições e encontrar conforto numa identidade em permanente transformação.
Já Francisca Nabinho apresentou “POINT SUR POINT”, uma coleção que coloca o detalhe, a repetição e o tempo no centro do processo criativo. A proposta parte da ideia de que uma imagem pode ser construída lentamente, através da acumulação de pequenos elementos, numa lógica que encontra inspiração no pontilhismo e, em particular, nas obras de Georges Seurat Um Banho em Asnières e Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte.
A influência destas pinturas manifesta-se na forma como a coleção explora a construção visual através da repetição. As paisagens junto à água e as figuras presentes no universo de Seurat prolongam-se em desenhos de barcos e dos seus reflexos, desenvolvidos a partir do ponto e da continuidade do gesto. A referência artística não funciona apenas como inspiração visual: torna-se um princípio de construção que atravessa diferentes dimensões do vestuário.
Em “POINT SUR POINT”, o desenho e a confeção estabelecem um diálogo constante. Flores construídas e aplicadas individualmente à mão transformam a superfície dos tecidos, acrescentando textura e profundidade através de um trabalho minucioso. Em contrapartida, o recurso ao trompe-l’œil cria uma ilusão visual, com folhos, laços, pregas e até joias representados graficamente sobre as peças. Elementos que poderiam existir como estruturas tridimensionais passam, assim, a ser sugeridos através do desenho.
É precisamente nesta relação entre o que é real e aquilo que é apenas representado que a coleção encontra uma das suas ideias mais fortes. Francisca Nabinho questiona a forma como percecionamos a roupa, explorando diferentes maneiras de criar volume, ornamentação e imagem. O olhar é convidado a aproximar-se, a distinguir materiais e técnicas e a descobrir como pequenos gestos podem alterar a leitura de uma peça.
A repetição assume, por isso, um papel essencial. Cada flor aplicada, cada ponto desenhado e cada detalhe contribuem para uma composição maior, num processo que valoriza a paciência e a precisão. A coleção constrói-se ponto a ponto, camada a camada, revelando uma abordagem em que o tempo investido no desenvolvimento das peças faz parte da própria narrativa.
Na ModaLisboa Priority, Ariana Orrico e Francisca Nabinho demonstraram como a moda pode partir de referências muito diferentes para desenvolver universos autorais. Enquanto Ariana transforma a relação com Lisboa numa reflexão sobre identidade, intimidade e contradição, Francisca explora a fronteira entre desenho e construção, realidade e ilusão. Duas propostas que encontram no quotidiano, na observação e no trabalho sobre os detalhes a possibilidade de criar novas formas de interpretar o vestuário contemporâneo.
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


