AHCOR abre o terceiro dia do Portugal Fashion Experience 2026 com uma celebração do tempo e da criação

O terceiro dia do Portugal Fashion Experience 2026 começou ao ritmo da contemplação. Longe da urgência que tantas vezes caracteriza a indústria da moda, a AHCOR apresentou DEMORA, uma coleção sem estação que convida a olhar para o tempo como um elemento essencial do processo criativo e das relações humanas.

Na passerelle, Sílvia Rocha propôs uma pausa. Cada coordenado revelou uma construção cuidada, onde a experimentação formal e a riqueza dos materiais traduziram uma visão amadurecida ao longo dos últimos anos. Em vez de seguir o calendário acelerado das tendências, a designer apresentou uma coleção que privilegia a permanência, defendendo que algumas ideias apenas encontram o seu verdadeiro significado quando lhes é concedido tempo para evoluir.

As silhuetas oscilaram entre volumes escultóricos e formas mais fluidas, explorando contrastes que se tornaram familiares no universo criativo da marca. A sobreposição de texturas, o diálogo entre diferentes materiais e a utilização de tecidos reaproveitados conferiram profundidade a uma coleção que encontrou na imperfeição e na transformação parte da sua identidade.

A cor voltou a desempenhar um papel determinante. Utilizada como elemento narrativo, percorreu toda a apresentação, reforçando emoções e estabelecendo ligações entre peças que, apesar da sua individualidade, construíram um discurso visual coerente. A cada saída, tornava-se evidente a procura por um equilíbrio entre expressão artística, sustentabilidade e inovação técnica.

Mais do que uma proposta de vestuário, DEMORA assumiu-se como uma reflexão sobre o valor dos afetos e da construção coletiva. A coleção surge como um reconhecimento de todos aqueles que acompanharam o percurso da marca desde a sua criação, transformando a passerelle num espaço de gratidão e partilha. É uma homenagem às pessoas, às experiências e aos encontros que moldam um caminho criativo.

Desde a fundação da AHCOR, em 2019, Sílvia Rocha tem desenvolvido uma linguagem estética profundamente autoral, marcada pela exploração do volume, pela liberdade cromática e pela reutilização consciente de materiais. Um percurso que se consolidou através da participação nas plataformas de novos criadores do Portugal Fashion, de projetos nas áreas do teatro e da cenografia e de uma crescente ligação ao ensino do Design de Moda, onde hoje desempenha um papel ativo na formação de novos talentos.

Ao abrir o terceiro dia do Portugal Fashion Experience, a designer reafirmou a maturidade da sua identidade criativa. Sem recorrer ao espetáculo fácil, apresentou uma coleção que encontrou força na delicadeza das ideias e na convicção de que a moda pode ser um espaço de reflexão, memória e permanência.

Num momento em que a velocidade parece ditar todas as regras, a AHCOR escolheu desacelerar. E foi precisamente nessa escolha que encontrou a sua maior afirmação: lembrar que algumas das criações mais significativas nascem quando o tempo deixa de ser uma corrida e passa a ser parte integrante da própria obra.

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🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

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