Os Militarie Gun chegaram ao palco com a confiança de uma banda que sabe exactamente porque está ali: para transformar inquietação em movimento, frustração em catarse e canções em descargas eléctricas de humanidade.
O concerto na noite de quarta feira 21 de janeiro na Casa da Música, foi uma demonstração clara de porque se tornaram uma das forças mais comentadas da nova vaga pós‑hardcore — não pela agressividade, mas pela forma como a canalizam em algo profundamente emocional.
Desde o primeiro riff, a banda impôs um ritmo que não dava espaço para hesitações. Ian Shelton, sempre em modo de combustão interna, cantou como quem tenta expulsar demónios pessoais ao mesmo tempo que convoca o público para fazer o mesmo. A sua presença é magnética: intensa, mas nunca distante; feroz, mas sempre vulnerável. É essa dualidade que torna os Militarie Gun tão singulares.
O alinhamento percorreu os temas mais marcantes do seu percurso recente — explosões curtas, directas, cheias de refrões que se entranham sem pedir licença. Canções como “Do It Faster”, “Very High” ou “My Friends Are Having a Hard Time” ganharam uma dimensão ainda mais urgente ao vivo, com guitarras que pareciam sempre prestes a sair dos trilhos tudo num pulso firme, quase militar, mas nunca rígido.
Não era um concerto para espectadores passivos: era um espaço de libertação colectiva, onde cada grito, cada salto e cada coro improvisado parecia fazer parte de um ritual de descompressão emocional. A energia era contagiante, mas nunca agressiva — havia uma sensação de comunidade, de reconhecimento mútuo, de “estamos todos a tentar sobreviver ao mesmo”, visualmente sem artifícios, luzes cruas que sublinhavam a honestidade da performance. Nada ali era pose. Nada era calculado. Era música feita para ser sentida no corpo.
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🖋 📸 Paulo Homem de Melo


