Azymuth na Casa da Música… meio século de invenção sonora em estado vivo

A Casa da Música recebeu este domingo 27 de setembro uma daquelas noites que não se repetem: a celebração de 50 anos de um dos grupos mais inventivos da música brasileira. Os Azymuth, criadores do inconfundível samba doido — fusão singular entre jazz‑funk e samba — provaram porque continuam a ser um caso raro de longevidade artística e influência global.

A sala estava cheia de admiradores de várias gerações, todos atraídos por essa alquimia sonora que o trio carioca transformou em assinatura. No palco, Alex Malheiros, único membro original ainda em atividade, assumiu o centro da narrativa com a serenidade de quem carrega um legado que não é apenas musical, mas espiritual. “Manter isto vivo é missão”, disse ao público, antes de mergulhar num alinhamento que cruzou história, memória e futuro.

O concerto teve como eixo “Marca Passo”, o primeiro álbum dos Azymuth desde o falecimento do baterista fundador, Ivan “Mamão” Conti. A ausência de Mamão foi sentida, mas nunca como sombra — antes como presença simbólica. Malheiros apresentou o disco como uma continuidade natural, uma forma de honrar o espírito inventivo que sempre guiou o trio.

Ao vivo, as novas composições ganharam corpo e pulsação, revelando a mesma elasticidade rítmica que marcou décadas de experimentação. Entre grooves densos, teclados luminosos e linhas de baixo que parecem respirar por conta própria, o público reconheceu a essência que fez dos Azymuth uma referência incontornável.

Se o concerto celebrou o passado, também sublinhou a relevância contemporânea da banda. Para lá das fronteiras do jazz e do funk, os Azymuth deixaram marca profunda na música eletrónica — algo que Malheiros fez questão de recordar. Ao longo da noite, surgiram temas que evocaram as colaborações com 4hero, Madlib e Jazzanova, bem como remisturas de nomes como Theo Parrish, Ron Trent, Global Communication e Daniel Maunick, que ajudaram a transportar o trio para novas gerações e pistas de dança.

Essas influências cruzadas estiveram presentes na forma como os temas se expandiram ao vivo, com improvisações que transformaram cada música num organismo em mutação. A plateia respondeu com entusiasmo, absorvendo cada variação como quem assiste a uma aula de história da música feita em tempo real.

No final, ficou claro que os Azymuth não são apenas uma banda histórica — são uma força criativa que continua a reinventar-se. O concerto na Casa da Música foi mais do que uma celebração de carreira: foi a prova de que o samba doido permanece vivo, vibrante e em constante transformação.

Meio século depois, os Azymuth continuam a fazer aquilo que sempre fizeram melhor: mover corpos, expandir horizontes e lembrar-nos que a música, quando nasce de verdade, não envelhece.


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🖋 📸 Sérgio Pereira

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