Pauliteiros de Miranda levaram o som de Trás-os-Montes ao último dia do Bons Sons 2026

O quarto dia do Bons Sons 2026 abriu espaço para uma das expressões mais reconhecíveis da tradição portuguesa. Pauliteiros de Miranda chegaram a Cem Soldos e, em poucos minutos, transformaram o palco num território de ritmo, precisão e memória, onde cada movimento parece carregar séculos de história.

Vindos do planalto mirandês, em Trás-os-Montes, Pauliteiros trouxeram uma manifestação que nasceu muito antes dos festivais e que continua profundamente ligada às comunidades de Miranda do Douro. As danças, associadas a antigos rituais guerreiros e danças de espadas, sobreviveram ao tempo e chegaram ao presente sem perder a sua dimensão cerimonial.

O som da gaita-de-foles marcou o início da viagem. A caixa e o bombo acrescentaram peso ao ritmo, enquanto os dançadores entraram numa coreografia onde nada acontece por acaso. Os paulitos chocavam entre si com precisão, criando uma sucessão de movimentos rápidos que transformava cada batida numa imagem.

Há uma força quase hipnótica nesta tradição. O olhar acompanha os paus, tenta antecipar o próximo movimento e rapidamente percebe que existe muito mais por detrás da aparente simplicidade da dança. Cada gesto exige coordenação, concentração e uma enorme cumplicidade entre os elementos do grupo.

Os trajes também fazem parte do espetáculo. As camisas brancas, as saias coloridas e bordadas, os coletes e os chapéus decorados com flores e lenços acrescentaram cor a uma atuação que já tinha no movimento a sua principal linguagem visual.

Mas Pauliteiros não são apenas uma memória preservada. A tradição continua ligada às festas, romarias e ao calendário religioso das aldeias mirandesas, onde as danças assumem uma função comunitária e ritual. Essa dimensão esteve presente em Cem Soldos, onde o passado encontrou um público de diferentes gerações.

A atuação revelou ainda uma particularidade importante do Bons Sons: a capacidade de colocar frente a frente diferentes tempos da música portuguesa. Entre propostas contemporâneas e experiências sonoras mais recentes, Pauliteiros lembraram que a inovação também pode passar por manter vivas manifestações que atravessaram gerações.

__________________________________________________________________________________________________________________________

🖋 Diana Silva

📸 Paulo Homem de Melo

Partilha