É-Aqui-in-Ócio: Entre o riso e o medo se faz a rentrée

Na Póvoa de Varzim, há quase duas décadas que a despedida do verão e a chegada do outono se fazem ao ritmo das pancadas de Molière. Entre 23 de setembro e 3 de outubro, o É-Aqui-in-Ócio Festival Internacional de Teatro regressa para a sua 17.ª edição, reafirmando-se como um dos mais relevantes e irreverentes projetos dedicados às artes performativas em Portugal. Promovido pela Varazim Teatro, o Festival volta a reunir artistas, companhias e públicos em torno de uma programação que conjuga diversidade artística, pensamento crítico e proximidade com a comunidade.

Depois de uma 16.ª edição dedicada à saúde mental, a edição de 2026 dá continuidade ao ciclo bienal internaMENTE/externaMENTE, deslocando agora o olhar para os fenómenos externos que moldam a sociedade contemporânea. O medo assume-se como tema central do Festival, não enquanto elemento paralisante, mas como ponto de partida para uma reflexão coletiva sobre o mundo atual. Partindo do mote “Em paisagens de medo, / Os risos iluminam o caminho / Até horizontes de luz”, o É-Aqui-in-Ócio propõe um programa que questiona, provoca e convida o espectador a encarar a realidade através de novas perspetivas.

A abrir a 17.ª edição do É-Aqui-in-Ócio, a poveira Companhia Certa – braço artístico da Varazim Teatro – apresenta, em estreia absoluta, “A Instalação do Medo”, para ver a 23 e 24 de setembro, às 21h30, no Cine-Teatro Garrett. Baseado no romance homónimo de Rui Zink, o espetáculo parte de uma premissa inquietante: e se o medo pudesse ser instalado como um serviço, entrando nas nossas casas sem pedir licença?

Assente no humor mordaz, na ironia e na crítica social, a peça explora uma metáfora sobre os mecanismos de controlo, manipulação e poder que atravessam a sociedade contemporânea. Mais do que inaugurar a programação, “A Instalação do Medo” introduz e sintetiza o universo temático que percorre todo o Festival. A partir de um texto que oscila entre o absurdo e a sátira, a Companhia Certa convida à reflexão sobre os medos individuais e coletivos que marcam o presente.

Ao longo de onze dias, o É-Aqui-in-Ócio traz à Póvoa de Varzim companhias provenientes de diferentes pontos do país e da Europa, com propostas que cruzam teatro, teatro físico, marionetas, comédia, tragicomédia e cinema. Através de um percurso artístico marcado pela diversidade de linguagens e olhares, a programação reúne estruturas consolidadas e emergentes, nacionais e internacionais, reforçando a vocação do Festival como espaço de encontro entre diferentes culturas, sensibilidades e formas de criação.

Depois da estreia de “A Instalação do Medo“, as criações nacionais voltam ao Cine-Teatro Garrett com a Companhia do Chapitô, que apresenta, a 29 de setembro, “Odisseia“, uma irreverente revisitação da epopeia de Homero com recurso à linguagem física e à comédia características do grupo lisboeta. A 3 de outubro, o Teatro da Palmilha Dentada traz “O 25 de Abril Nunca Aconteceu”, uma distopia que revisita a história recente através do humor, do absurdo e da sátira, o espetáculo propõe uma reflexão sobre a liberdade, a memória coletiva e o valor das pequenas conquistas democráticas.

A dimensão internacional do Festival ocupa, igualmente, um lugar de destaque. A 25 de setembro, a galega Ártika Cia. apresenta “Non Pasarán“, uma reflexão sobre o medo e a desconfiança; no dia seguinte, a valenciana La Teta Calva sobe ao palco com “Tributo“, um olhar sobre o sucesso, o fracasso e a memória. A 27 de setembro, “Super-Herói“, da El Perro Azul, recorre às marionetas e às máscaras para falar de coragem e identidade, enquanto “Escupir al Cielo“, da Azar Teatro, explora o absurdo e a fragilidade das escolhas humanas. A presença internacional prolonga-se até 2 de outubro com “La fortuna de estos tiempos”, da Compagnie Filaromus, uma commedia dell’arte multilingue que cruza humor, crítica social e teatro político.

Pela primeira vez, o Festival apresenta a secção É-Aqui-in-Ócio OFF, uma extensão da programação oficial que reforça o compromisso com a descentralização cultural e a aproximação da criação artística às comunidades locais. Diferentes freguesias do concelho da Póvoa de Varzim vão receber propostas concebidas para espaços não convencionais, convidando o público a descobrir o teatro fora das salas de espetáculo e a estabelecer novas formas de relação com os artistas e com o território.

Além da apresentação no Cine-Teatro Garrett, integrada na programação principal, “La fortuna de estos tiempos”, da Compagnie Filaromus, vai sair à rua no âmbito do É-Aqui-in-Ócio OFF, que integra ainda “Amadeo(s)”, do Teatro Art’Imagem, “Insectes”, da Xarop Teatre, e “Molhos”, da Kopinxas Companhia de Teatro.

Paralelamente, o Festival alarga a sua componente multidisciplinar através de atividades complementares que incluem cinema em parceria com o Cineclube Octopus – destaque para a exibição, a 1 de outubro, de uma versão restaurada em 4K de “Persépolis“, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud – e momentos de reflexão e debate em torno do tema central da edição.

A participação ativa da comunidade continua a assumir um papel central na identidade do É-Aqui-in-Ócio. Através de um trabalho de curadoria e programação desenvolvido em articulação com a Comissão Consultiva “Público pela Cultura”, o projeto envolve a comunidade no processo de construção da programação, reforçando um modelo de participação que aproxima os espectadores da criação artística e valoriza o seu papel enquanto agentes ativos da vida cultural.

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🖋 Redação / press release

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