Entre a experimentação, a inovação e a afirmação de uma nova geração de criadores, o Bloom Contest voltou a assumir-se como um dos momentos mais aguardados do Portugal Fashion Experience 2026. Integrado na programação que decorreu entre 1 e 4 de julho, em Matosinhos, Porto e Ílhavo, o concurso, powered by Salsa Jeans, reafirmou o seu papel enquanto plataforma de lançamento para jovens designers portugueses, revelando propostas que desafiaram convenções e apontaram novos caminhos para a moda nacional.
Mais do que um desfile, o Bloom foi um exercício de visão. Em passerelle, cada coleção apresentou uma identidade própria, refletindo diferentes formas de pensar o design contemporâneo, desde a investigação de materiais à construção de narrativas visuais, numa edição marcada pela diversidade criativa e pela maturidade conceptual dos participantes.
O júri distinguiu André Pinto como vencedor do Bloom Contest 2026, atribuindo-lhe um prémio monetário destinado ao desenvolvimento da próxima coleção e a oportunidade de realizar um estágio profissional. A Menção Honrosa foi entregue a Rita Santos, enquanto Afonso Afonso, Bruna Oliveira, Francisco Brito, Granatum Studio, José Rocha e PARARCHIVES completaram um alinhamento que demonstrou a riqueza e a pluralidade da nova geração da moda portuguesa.
A coleção vencedora, ABYSSUS , destacou-se pela construção de uma narrativa visual inspirada no clássico cinematográfico Metropolis. O ponto de partida revelou-se particularmente simbólico: embora realizado na década de 1920, o filme projeta a sua ação precisamente no ano de 2026, estabelecendo uma ligação inesperada entre a ficção futurista e o presente.
Na conversa com a Glam Magazine, André Pinto explicou que a coleção nasceu dessa dualidade entre o humano e a máquina. Os primeiros coordenados mergulham o espectador num universo quase subaquático, onde predominam superfícies metálicas, volumes rígidos e referências robóticas. Ao longo do desfile, essa estética vai sendo desconstruída, dando lugar a silhuetas mais leves, materiais fluidos e uma crescente exposição da pele, simbolizando o regresso à humanidade e à natureza.
O percurso apresentado em passerelle funciona como uma metamorfose. A figura inicialmente protegida por uma espécie de armadura tecnológica vai libertando-se dos elementos mecânicos até revelar uma identidade mais orgânica e emocional. Um exercício conceptual que alia narrativa, construção e imaginação, demonstrando uma abordagem sólida ao design de moda.
Questionado sobre o significado da distinção, André Pinto não escondeu a emoção. O prémio representa não apenas o reconhecimento de meses de trabalho, mas também uma oportunidade concreta para continuar a desenvolver o seu percurso criativo e dar continuidade à visão que apresentou nesta edição do concurso.
Ao longo do desfile, tornou-se evidente que o Bloom continua a ser um espaço onde a experimentação encontra liberdade. Cada finalista trouxe uma linguagem própria, explorando diferentes relações entre corpo, matéria, memória e inovação. Sem procurar tendências imediatas, as coleções privilegiaram o discurso autoral, evidenciando uma geração cada vez mais consciente da importância da sustentabilidade, da investigação e da construção de identidade.
Num momento em que a moda procura responder às transformações sociais, tecnológicas e culturais do presente, o Bloom Contest volta a afirmar-se como um observatório privilegiado do talento emergente em Portugal. Mais do que premiar uma coleção, distingue processos criativos, incentiva novas narrativas e cria pontes entre o ensino, a indústria e o mercado.
A edição de 2026 confirmou que o futuro da moda portuguesa continua a ser desenhado por criadores capazes de transformar referências culturais em propostas contemporâneas, conciliando visão artística, inovação técnica e pensamento crítico. Se o Bloom existe para antecipar o que aí vem, o desfile deste ano deixou uma certeza: a próxima geração já começou a escrever o seu lugar na moda portuguesa.
“A coleção se chama ABYSSUS e foi inspirada num filme Metropolis, dos anos 20, em que, por acaso, o filme tem uma vertente futurista e ele supostamente passa-se em 2026, por isso que ganhou bem o ano. E, basicamente, peguei elementos do filme para me inspirar para a coleção e os elementos principais é o metálico, o robótico e o subaquático.
A coleção começa debaixo de água, num mundo mais… Ou seja, começa mais metálico, mais desumanizado. A pessoa afunde-se com a máquina para conseguir sobreviver nesse ambiente e, com o passar da coleção, vai perdendo essa desumanização, esses elementos metálicos e ficando mais natural, mais fluido, mostra mais pele e termina totalmente fora desses elementos metálicos. (…)”
(Excerto da entrevista de Andre Pinto á Glam Magazine)
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🖋 Diana Silva
📸 Paulo Homem de Melo


