Foi com a mudança de milénio que Paulo Furtado, ou King Cake como era conhecido nos Tédio Boys cria o projeto The Legendary Tigerman, numa altura em que paralelamente, dava a conhecer ao mundo os Wraygunn. Se nos Wraygunn Furtado se fazia acompanhar por um coletivo consistente e marcante, em The Legendary Tigerman surgia como um cavaleiro solitário, onde se assumia como one-man-band. “Naked Blues”, “Fuck Christmas, I Got The Blues” e “Masquerade” marcaram essa primeira década a solo até chegarmos ao ano de 2009.
No final desse ano surgia “Femina”, um trabalho conceptual onde The Legendary Tigerman se fez rodear de várias convidadas; Asia Argento, Peaches, Lisa Kekaula, Maria de Medeiros, Becky Lee, Phoebe Killdeer, Cibelle, Rita Redshoes, Claúdia Efe, Mafalda Nascimento, Dorit Chrysler, Rita Braga e Cais Sodré Cabaret.
Um disco onde o solitário Homem Tigre coloca-se na pele de “Femina”, e onde explora temas como o amor e ou o desejo, nas suas inquestionáveis complexidades e aceitações enquanto Femina, sempre num balanço frágil entre a crueza e a delicadeza, entre o visceral e a fantasia, espelhado em canções como “Light Me Up Twice”.
Afirmando-se como álbum intemporal que o é, “Femina” conquistou o seu espaço na música, marcando igualmente uma viragem na carreira do, até essa altura solitário, The Legendary Tigerman.
Mas “Femina” foi muito mais do que esse virar de página. Ao assumir um papel Femina, Paulo Furtado traz a palco um conjunto de statements até essa altura não referenciados ou ignorados pelo mundo da música, a maior parte das vezes dominado pelo sexo masculino.
Navegando no universo de Serge Gainsbourg, que serviu de inspiração para a capa do disco, encontramos canções com uma complexidade extrema da forma como transmitem a mensagem. “My Stomach Is The Most Violent Of All Italy” com a italiana Asia Argento a dar a voz (e as dores) ao tema, ou até “Life Ain’t Enough For You” igualmente com a Italiana a servir-se dos desamores desconhecidos de uma vida sem significado, as canções espelham essas mensagens até essa altura encobertas ou ignoradas.
Se Asia Argento se escondia nas penumbras, já Peaches em “She’s A Hellcat” era direta num afrontamento ao machismo instalado na sociedade.
Com temas na sua maioria originais, encontramos no alinhamento de “Femina” temas que abordam de forma indireta essa libertação feminista, “These Boots Are Made For Walkin’”, um original de Lee Hazlewood com a timidez e elegância vocal de Maria de Medeiros a construir a sua afirmação, ou ainda a personificação em “Lonesome Town” de Baker Knight a entregar a Rita Redshoes a mestria e a beleza feminina numa solidão sempre presente só porque se é mulher.
Nem sempre o lado mais escuro marcou presença em “Femina”, as mensagens conseguiam encontrar um caminho numa jornada mais ritmada espelhada em “The Saddest Thing To Say” na voz inconfundível de Lisa Kekaula ou “& Then Came The Pain” com Phoebe Killdeer a justificar porque é uma das grandes vozes do projeto Nouvelle Vague.
“Femina” marcou o ano de 2009, marcou o modo como se fazia música em Portugal mas marcou a sociedade da forma como despiu a mesma sem rodeios, até pela própria capa do disco.
15 anos depois Paulo Furtado, The Legendary Tigerman, celebrou na Casa da Música esse disco eterno e sem tempo. Há quinze anos, na apresentação de “Femina”, Furtado fez-se acompanhar em palco pelas convidadas, numa noite que ainda vestia o papel de one-man-band.
Na noite de 1 de abril de 2025, o “fato” de one-man-band já não lhe serviu, cresceu, evoluiu como o mundo evoluiu, encontramos um Paulo Furtado mais adulto, mas com a mesma timidez de sempre.
Em palco não estiveram todas as convidadas, mas Maria de Medeiros, Phoebe Killdeer, Rita Redshoes, Claúdia Efe com as estreantes Helena Coelho e Sara Badalo, levaram-nos da melhor forma a uma viagem ao passado, que de passado nada tem, pois a mensagem de “Femina” é intemporal e sempre atual e onde o amor encontrou o seu local fora de “Femina” em “Sea of love”.
“True Love Will Find You In The End” fechou uma noite de memórias, ou talvez não, uma noite de recordações, ou talvez não, ou uma noite de revolta, ou talvez não.
“Femina” é, e sempre será um disco sem tempo e para ouvir com tempo… muito tempo …..
__________________________________________________________________________________________________________________________
? Sandra Pinho
? Paulo Homem de Melo


