Regar o jardim… A Crónica de Manuel Tavares – Glam Magazine

Regar o jardim… A Crónica de Manuel Tavares

Um Festival da Canção é um concurso, por isso é algo pateta, todos nós temos gostos diferentes e cada um tem o seu TOP TEN e vive feliz, e bem, com isso. Mas este Festival, em particular, funcionou de certa forma como uma radiografia sociológica dos portugueses. Afinal a expectativa era muita visto que o ano passado o inesperado aconteceu depois de o Festival ter resolvido mudar totalmente a forma não só como seleccionava as músicas como a própria votação das mesmas. Isso deu logo à partida melhores resultados a nível nacional que se reflectiram numa inacreditável vitória numa Eurovisão já ela própria cheia de vícios e manhas.

Ainda ontem escrevi que apesar de estes dois últimos anos terem sido bem melhores (nem há comparação possível), o pessoal parece que se esquece da porcaria de dezenas de anos para trás. É de facto incompreensível. Sobretudo estes dois anos trouxeram-nos melhores músicas e melhores intérpretes e isso sim é uma vitória para a música nacional.

Uma coisa é a crítica construtiva ou até brincar com bananas (eu critico e brinco) outra coisa é este fogo rasteiro e visceral que ninguém sabe bem de onde vem. O que quer a malta afinal? Faz lembrar a rábula dos Gato Fedorento “o que tu queres sei eu“, ou seja, o que interessa é estar naquela permanente postura árida de “velho do Restelo”.

Plágios?…

Meus amigos desde que há música há tendências, estilos, géneros onde o pessoal se imita entre si aos pacotes! Ouçam uma sinfonia romântica, um vilancico renascentista, uma cantiga de Santa Maria medieval, uma sonata clássica, um twelve bar blues, um tema punk de dois acordes, uma dança irlandesa, um cantar alentejano, um vira minhoto… o que for, aquela malta imitavam-se uns aos outros como se não existisse amanhã!

Os melhores para mim são aqueles que se deixam influenciar pelos …melhores (pondo de lado a subjectividade que o termo “melhores” se reveste).Depois há aqueles poucos afortunados que marcam uma época, que se tornam num ponto de reunião de tanta coisa que acabam por explodir de uma forma em que o resultado final é superior à soma das partes. É o chamado “salto quântico”, que gera nomes como um Bach, um Debussy, uns Beatles e etc e tal… Mas para que isto aconteça é preciso que exista um solo onde uma cultura de apoio ao que é novo esteja sempre presente. É preciso regar o jardim sem escolher de forma tão discricionária as flores ou as plantas acabam por morrer.

E tem sido assim por cá. Enquanto só há lugar a ervas daninhas a malta deixa andar, manda uns bitaites a gozar e volta a deixar andar, porque há um certo prazer em que tudo fique na fase do adubo, e que seja só isso mesmo, adubo, porque o adubo é familiar, adubo é adubo, o cheiro é previsível e apesar de desagradável, acaba por tornar-se próximo e até … fofinho…

Uma nota final para a frescura, humor e descontração sem abandalhamento pateta dos dois apresentadores. Tornaram os pontos mortos em coisas agradáveis e o rapaz foi mesmo o autor da piada da noite: “Então a Madeira não dá 12 pontos ao jardim!?”

Heeheheheh… Cinco estrelas

 

 

Manuel Tavares

Partilha