NOS Primavera Sound 2018… Rock & Hip Hop non stop – Glam Magazine

NOS Primavera Sound 2018… Rock & Hip Hop non stop

Sexta feira 8 de Junho… o dia em que o hip hop marca presença em força na 7ª edição do NOS Primavera Sound. Dois dos principais headliners faziam parte do movimento de música urbana surgida em finais dos anos 70. O palco maior do festival (palco NOS) recebia 2 desses nomes, Vince Staples (que não quis ser fotografado) e A$AP Rocky. Pelo meio o stoner marcou presença no alinhamento e algumas propostas indefinidas que não conquistaram o público, (bastante) ecléctico que ocupava o parque da cidade neste segundo dia do festival.


Mais uma vez o palco Seat e o palco Super Bock iniciavam ao mesmo tempo as hostilidades. Desta vez duas bandas nacionais, duas bandas que pregam a religião do rock ‘n’ roll na sua vertente mais stoner. De Barcelos chegavam os Solar Corona ao palco Seat, os Black Bombaim, também de Barcelos, ocupavam o palco Super Bock. Dois Power trio a encher de música uma abertura de portas calma, debaixo de uma réstia de sol.


Se por um palco ouvimos as (longas) canções de “Far Out”, no outro lado ecoavam temas de “Outerspace”.

Aquecimento feito, os Idles subiam ao palco NOS na sua versão alargada, sim o palco estava maior para receber ao final da noite A$AP Rocky. A banda liderada por Joe Talbot trazia ao palco maior do Festival o disco de estreia deste quinteto de Bristol, “Brutalism”. Canções cruas e duras caracterizaram em palco o post-punk dos britânicos, a lembrar a época dourada do punk. No público, um misto de público jovem, claramente a aguardar espaço para os MC’s, e um público sereno, adulto que vivia a intensidade do momento ao som de temas como “Faith in the City”, “Divide & Conquer” ou até do já clássico “Mother”.
Um palco em formato estendido mas que não deu asas à banda de se alargar como queria, e ou como devia. Para a memória fica a interrogação de TalbotWhat da fuck is this?”

No palco ao lado, o soturno Manuel Gagneux trazia o seu projeto Zeal And Ardor. Em palco, evangelhos negros (em todo o sentido da palavra) que o artista suíço-americano Manuel Gagneux prega no seu sermão como uma sonhadora versão de Blues e depois as esmaga contra um pentagrama de metal avant-garde.
De ritmos incontrolados, a música descontruía-se à medida que a apresentação se prolongava no tempo, num concerto que nem a propósito arrancou ao som de “Sacrilegium I”


Antes de regressar ao palco NOS, uma voltinha pelo recinto de festival, primeiro com uma paragem no palco pitchfork (o antigo palco .), onde o jovem britânico de 18 anos, George van den Broek, com o seu projeto Yellow Days apresentava o seu segundo trabalho “Is Everything Okay In Your World?”
Amores de verão convertidos em música romântica da nova geração, a agradar a muitos jovens que ‘fugiam’ da fúria e do sacrilégio imposto pelos Zeal And Ardor, uns metros abaixo.


A estreia aconteceu em 2017, de seu nome Mattiel Brown, reduzido em palco para apenas Mattiel apresentou de uma forma desinibida o seu disco de estreia homónimo. Sem surpresas, para quem conhecia as suas canções, misto de dream pop com rock, a também designer acaba por não revelar em palco a chama que mantém viva as canções que fazem parte do disco de estreia. Apoiada  por excelentes músicos, valeu a sua sonoridade em detrimento da apresentação, embora como já referido de forma desinibida, mas sem a garra que as canções exigiam.


Descendo até ao palco NOS onde se esperava pelo regresso ao festival das veteranas The Breeders. As más línguas diziam que as The Breeders eram o rosto feliz da alternativa pop/rock dos anos 90… mas a realidade é que 30 anos depois, elas continuam a fazer novas canções, veja-se o último disco editado em 2018 “All Nerve”, e que marca um intervalo de 10 anos de novidades. Em palco, as outrora rebeldes estão mais calmas, mas também mais envolvidas na música que transmitem ao público.
Kim Deal e o resto da banda, sabem como ninguém segurar o público, que no caso das The Breeders, muitos estão ali à espera que elas ‘toquem aquela’. E sim ‘aquela’ chegou, “Cannonball”, o clássico intemporal de 1993, da banda da ex-Pixies Kim Deal.

No palco Pitchfork surgiam no alinhamento as Ibeyi, gémeas Francesas-Cubanas que cantam em Espanhol, Francês e Yoruba (dialecto de Aruba) num colchão jazz com molas afro-latinas e adornos electrónicos por vezes elegantes. Assim se descreve em poucas palavras a passagem pelo palco mais a norte do festival.
Doçura e simpatia completam a apresentação  do novo “Ash” e de algumas pinceladas por temas do disco de estreia homónimo.

Ao fim de 7 anos, os Shellac foram promovidos a um dos palcos principais. Desceram até ao palco Super Bock, para trazer mais uma dose de energia e descargas electrizantes. Os norte americanos Steve Albini, Todd Trainer e Bob Weston, nunca atuaram noutro festival para além do Primavera Sound. Diz-se por aí, o dia em que os Shellac não actuarem no NOS Primavera Sound significará que o festival mudou.
A banda de Chicago tem em Todd Trainer, o baterista, o seu líder carismático que ao longo de mais de 25 anos de carreira não deixa de realçar a presença da bateria em palco. Para o ano cá os esperamos novamente. Já agora um disco novo era bem vindo.

Vince Staples, um dos headliners do segundo dia tomava conta do palco NOS. Ao mesmo tempo duas propostas desconhecidas marcavam presença em 2 palcos distintos. Primeiro, no palco pitchfork os surpreendentes (ou pela positiva ou pela negativa) Superorganism. Dose qb de K-pop, dentro de um saco de doces e gomas, gomas essas coloridas, artificiais e claro, infantis…  gomas essas lideradas por uma jovem Japonesa de 17 anos…
Do outro lado a receita encontrava paralelo em Mavi Phoenix, jovem austríaca, que com algum esforço tentava analogias da sua música com o sol e com o nome do festival. A emoção por estar num dos palcos maiores do festival (o palco seat) deixaram a jovem atrapalhada, igualmente vítima das armadilhas do autotune.

A noite ainda apresentava mais algumas propostas, antes de A$AP subir ao palco. Uma das grandes surpresas da noite foi sem duvida Stephen Bruner. Thundercat, o projeto que este mago do baixo batizou, apresentou em palco um incrível groove que não deixou ninguém indiferente às linhas de baixo que soltava. Em falsete, contrastante com a sua aparência física, Bruner definiu o seu próprio estilo musical em 2011 quando editou o seu disco de estreia “The Golden Age Of Apocalypse”.

Pop, soul, funk, jazz mas sobretudo um groove negro como mais ninguém consegue apresentar em palco, marcam de forma vincada a sua passagem pela 7ª edição do NOS Primavera Sound. “Drunk”, o seu mais recente trabalho esteve em destaque em palco, mas a sua música é intemporal e única.

Stephen Bruner está para o baixo como na mesma linha Kamasi Washington está para o saxofone.
À memória veio o concerto de Charles Bradley naquele mesmo palco em 2014, quando o seu nome ainda era uma incógnita musical.

A tensão conjuga-se no feminino… era o que tínhamos em mente quando se chegava junto ao palco Seat onde se aguardava com alguma inquietude a subida ao palco de Fever Ray, o projecto de Karin Dreijer. A artista sueca já mastigou e cuspiu o veneno no último disco de The Knife, mas o exorcismo começa agora, em todos os cantos deste labirinto musical com o seu projeto a solo Fever Ray.
Em palco a defesa dos valores feministas são mais que evidentes. Uma palete de cores e visuais levados ao extremo, caracterizam uma apresentação mordaz, irónica e provocante de canções que abordam de uma maneira rude uma sociedade que ainda descrimina o sexo feminino. “Triangle Walks”. “IDK About You” ou “Mama’s Hand” são bem representativas dessa revolta dissimulada em beats e sonoridades dançáveis. Mais um manifesto, a juntar a tantos outros que marcam o line up da edição de 2018 do NOS Primavera Sound.

Estava tudo preparado para receber um dos nomes maiores do atual panorama do hip hop. A estreia em Portugal de A$AP Rocky era aguardada por milhares junto do palco NOS, bem como na envolvência do mesmo.
Um palco aumentado, uma enorme cabeça posicionada ao centro do mesmo, uma introdução de três músicas e uma explosão quando o rapper entra em palco ao som de “Distorted Records”. Com A$AP em palco, a música é puro entretenimento, a adrenalina dispara em todos os sentidos, dentro e fora do palco atingindo de forma contagiante o público que se entrega. Rakim Mayers é tudo isto e muito mais, mas muito mais do que se pode imaginar em palco. Em constante movimento o rapper não pára, descarrega energia e dispara em todas as direções, ataca os ‘negros’, critica os ‘brancos’, ofende o público, humilha, cospe, defende as armas, critica as mortes pelas mesmas. Uma onda de violência muito à semelhança do concerto de Tyler, The Creator invade o festival, mas A$AP está numa liga mais à frente, Tyler tem que morder muito para chegar a um palco e fazer o que quer, para o público o abençoar. A$AP é o homem do momento, o A$AP Mob que se destaca.

Quando chegamos ao fim de um concerto de A$AP Rocky conseguimos imaginá-lo a caminhar tranquilamente em direcção à câmara enquanto tudo atrás explode…
E ao segundo dia do festival, o NOS Primavera Sound fica rendido ao hip hop. Polémicas à parte, a guerra de géneros musicais passou ao lado de um dia repartido entre o rock e o hip hop com algumas pinceladas de música e Karaoke pelo meio. Um festival tem que ser cada vez mais eclético para ocupar os fãs da música ao longo das largas horas que passam no recinto, e com a mestria desde a primeira edição o NOS Primavera Sound continua a realizar essa premissa.

Nota final para o concerto dos Unknown Mortal Orchestra que já de madrugada encheram por completo o espaço reservado ao palco pitchfork.

Texto e reportagem: Sandra Pinho
Fotografias: Paulo Homem de Melo

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