Palcos dos Festivais Gil Vicente pertencem aos criadores portugueses – Glam Magazine

Palcos dos Festivais Gil Vicente pertencem aos criadores portugueses

Decorrida uma semana plena de fulgor teatral em Guimarães, a criação nacional continua a preencher os palcos do Centro Cultural Vila Flor e a convocar o público para uma exploração conjunta desta arte que é de todos (e que todos tem o poder de reunir).

A segunda semana da 31ª edição dos Festivais Gil Vicente tem início marcado esta quinta-feira com “Casimiro e Carolina”, de Tónan Quito. Segue-se “Sobre Lembrar e Esquecer”, de Estelle Franco, Mariana Ricardo, Masako Hattori, Paula Diogo e Sónia Baptista.

O fecho do festival acontece com “Perplexos”, de Cristina Carvalhal, na cidade que ao longo de duas semanas se rende por completo à criação teatral nacional. Na última semana, estiveram em cena “Pulmões”, de Luís Araújo, “Retábulos”, do Teatro Oficina, e “Se Eu Vivesse Tu Morrias”, de Miguel Castro Caldas & Lígia Soares, Miguel Loureiro e Tiago Barbosa, Filipe Pinto, Gonçalo Alegria e Salomé Marques.

Tónan Quito traz uma história de amor. “Casimiro e Carolina” (14 de junho), de Ödön von Horváth, fala sobre as sequelas da crise de 1929, a fazer lembrar esta que ainda atravessamos. A depressão é grande, o desemprego elevado, mas, apesar das medidas de austeridade tomadas pelo governo, as personagens encontram-se numa festa da cerveja para se divertirem, beberem e esquecerem os problemas. Casimiro e Carolina é um casal que se ama – ele está desempregado, ela trabalha – até que entram em rutura, discutem, separam-se e a ferida fica aberta. O desespero do qual fugiam fica visível. Como ficaremos nós quando estas políticas passarem? Há esperança? É possível amar em tempos de crise? Não poderia haver melhor altura para fazer “Casimiro e Carolina” do que esta em que vivemos, nestes dias tão violentos.

Na sexta-feira (15 de junho), Estelle Franco, Mariana Ricardo, Masako Hattori, Paula Diogo e Sónia Baptista desafiam a refletir sobre o modo como a memória opera nas nossas vidas em “Sobre Lembrar e Esquecer”. Vindas de lugares e experiências distintas, estas cinco criadoras-intérpretes estabeleceram um território de partilha para refletir sobre aquilo que nos move, sobre o mundo que nos rodeia. E sobre aquilo que esquecemos. “Sobre Lembrar e Esquecer” é a primeira peça de uma trilogia, inspirada pelo livro “Les Formes de l’oubli” do antropólogo Marc Augé, que se completará com “A Estação de Outono” e “Paisagem”. Três espetáculos para refletir sobre o modo como as lembranças operam nas nossas vidas: o que escolhemos recordar ou esquecer ou o que somos capazes de recordar e esquecer. Por hábito, por condicionamento, por autopreservação, por acidente. Nós somos as nossas memórias.

O elenco de espetáculos fecha com “Perplexos” (16 de junho), de Cristina Carvalhal, uma peça em que a realidade parece estar constantemente a ser reformulada, raiando o absurdo. Os casais, as férias, os filhos, as empregadas domésticas, Darwin e a lei do mais forte, a sombra nazi ou um baile de máscaras, são alguns dos temas presentes nesta espécie de comédia de costumes, assombrada por Pirandello.  As personagens multiplicam-se. Mas afinal, o que é que é real? Talvez apenas uma certa apetência pelas grandes questões filosóficas que nos perturbam desde Sócrates. Quando, em 2011, encenou “A Pedra” de Marius von Mayenburg, Cristina Carvalhal ficou entusiasmada com a perspetiva escolhida por Mayenburg de abordar a narrativa a partir da plasticidade da memória, não só a sua capacidade seletiva, mas também a sua capacidade de reinvenção. “Perplexos” parece ir ainda mais longe nesta questão da memória, e consequentemente, da identidade, como se cada nova cena nos convocasse a esquecer, ou a permanentemente reconfigurar o presente, negando mesmo as memórias mais imediatas.

 

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