NOS Primavera Sound 2018… Um olho em “Father” e outro em “Lorde” – Glam Magazine

NOS Primavera Sound 2018… Um olho em “Father” e outro em “Lorde”

O regresso ao Parque da cidade do Porto para mais uma edição do NOS Primavera Sound é sempre uma aventura musical. É assim há 7 anos desde a primeira edição em 2012, edição essa que tinha em Bjork a sua estrela maior mas que um vulcão, curiosamente no país da cantora, fez com que ela não fosse a responsável pela estreia do festival no Porto. Mas em 2012, os Shellac estavam lá, como vão estar amanhã, dia 8 de Junho pela 7ª vez…

Ao longo de 7 anos foram muitos os nomes dados a conhecer em primeira mão no Festival, mas também muitos consagrados a pisar pela primeira vez os palcos nacionais.  Esta 7ª edição segue essa premissa com muitas estreias e futuros nomes emergentes da música a marcar presença.
Um novo palco surge praticamente na entrada do recinto ‘obrigado’ a viagens mais espaçadas entre concertos, e dispondo o público pelo recinto.


Este primeiro dia era marcado pelo arranque deste novo palco, com os Portugueses Fogo-Fogo, que inspirados pelas sonoridades de Cabo Verde, incendiaram literalmente o arranque do festival.
Um verdadeiro funaná do colectivo constituído por Francisco Rebelo (baixo), João Gomes (teclas), Márcio Silva (bateria), Danilo Lopes e David Pessoa (vozes/guitarra). Ao longo de 45 minutos foi possível fazer dançar sem truques, apenas  com energia de bpms carregados, com a bateria e o baixo em permanente derrapagem, e com sons inspirados na concertina a comandarem a identidade melódica em palco.

Os novos temas “Oh Minina” e “Nha Cutelo”, que fazem parte do novíssimo EP “Nha Cutelo”, entre alguns temas já conhecidos da banda, explodiram ao final da tarde, arredando como por magia a chuva deste primeiro dia do festival.

No final do concerto a banda esteve à conversa com a Glam Magazine

 

A tarde continuava no palco Seat com os escoceses The Twilight Sad, mas a nossa aventura passava pelo palco Super Bock, onde uma das revelações do festival continuava a alimentar o rastilho que os Fogo-Fogo tinham acendido logo na abertura do festival, embora em estilos completamente opostos.

Starcrawler, putos rebeldes, um rock’n’roll revigorante proveniente de Los Angeles servia para alimentar um início de noite que se esperava longo e trágico. Inspirados nas canções dos The Runaways ou até de Ozzy Osbourne, os Starcrawler começaram a fazer barulho há cerca de 3 anos, sempre assentes na imagem de Arrow de Wilde (filha da fotógrafa e realizadora Autumn de Wilde), a rebelde vocalista da banda, conhecida por vomitar sangue fictício nos concertos. “I Love LA”, o cartão de visita da banda, passou pelo palco Super Bock, entre outras canções que constituem o disco de estreia dos já apelidados Nirvana do século XXI.

Se a rebeldia em palco foi constante ao longo de 45 m no palco Super Bock, no palco ao lado, o palco NOS recebia Mike Milosh, o jovem canadiano mentor do projeto Rhye. “Blood”, segundo disco da banda editado já em 2018, serviu como suporte para um final de tarde, sem sol, mas com a envolvência mágica da voz lúcida de Mike, agregada às sensuais e poderosas composições musicais de Rhye como um todo.

Não sendo uma estreia em Portugal, Milosh já tinha trazido os Rhye em 2013 e 2015 a Portugal, fica no ar o desejo de tornar a ver, mas principalmente ouvir, as canções sensuais de “blood” numa sala mais íntima, onde Mike até pode ser mais sedutor. “Please”, “Waste”, “Phoenix” foram algumas das canções novas de “Blood” que marcaram o final de tarde, sem esquecer “Last Dance” ou “Hunger”, a encerrar o concerto, do primeiro disco.

Se a sensualidade marcou o concerto de Rhye, a purificação era levada ao extremo com a subida ao palco do carismático Father John Misty. Joshua Tillman trazia “God’s Favorite Customer”, o novíssimo disco editado uns dias antes do concerto, mas curiosamente abria o concerto com “Nancy From Now On” do seu primeiro disco “Fear Fun”. Se em “Pure Comedy”, o disco de 2017, a música de Tillman surge de uma forma mais límpida e abrangente, em “God’s Favorite Customer” a introspecção assume o lugar de destaque nas suas canções. A onda de excitação junto das fãs, que gritam em plenos pulmões pelo artista ainda está lá, mas longe dos tempos em que Tillman circulava em palco como o pastor errante dos infiéis e pecadores.

O artista deixou de lado igualmente a irreverência do “pastor” mas continua com uma presença em palco insinuante que leva ao rubro de tudo e todos, ao ponto de se intitular o cliente favorito de Deus… “Disappointing Diamonds Are The Rarest Of Them All”.


4 discos marcam a carreira a solo do miúdo feito homem Ezra Furman. “Transangelic Exodus”, o disco de 2017 é aquele que o está a projectar a nível mundial. A aventura começou em 2006 com Ezra Furman & the Harpoons, mas seria a sua ruptura com os elementos da banda em 2012 que Ezra Furman iria enfrentar um verdadeiro abismo musical. “The Year of No Returning” seria a prova disso deste norte americano, rebelde em palco, com canções intensas e letras dramáticas abordando alguns dos temas taboo da sua própria religião como o sexo, a homo sexualidade e a opressão física e verbal, presente no tema “I Wanna Destroy Myself” que abriu o concerto, passando por “I Lost My Innocence” e terminando em “Suck the Blood from My Wound”.


Pelas 22 horas o silêncio tomou de assalto o Parque da cidade. Ao longo de 7 edições foram raras as vezes em que todo o festival parava para assistir a um único concerto. Se a memória não me falha, o último foi Antony & The Johnsons em 2015.
Em 2018 a história repete-se pela mão, ou melhor pela voz de Ella Marija Lani Yelich-O’Connor.
A jovem de 21 anos da Nova Zelândia, mais conhecida por Lorde, silenciava as cerca de 30.000 almas que ali estavam para a ouvir. Emoções ao rubro, um concerto sem falhas, onde a música, intercalava com as palavras da artista, que de uma forma “Melodrama” comunicava com o público. Canções do novo disco como “Sober”, “Homemade Dynamite”, “The Louvre”, “Liability”, “Sober II”, “Supercut”, “Perfect Places” ou “Green Light” fizeram parte do alinhamento mas ainda houve espaço para temas que marcaram a cantora no seu disco de estreia.

Se o público era jovem, e as suas canções procuram esse público com os seus problemas característicos, Lorde soube como ninguém ‘piscar’ o olho a um público mais adulto que seguiu atentamente as suas canções e os seus dramas, de uma forma melódica.

Do concerto de Lorde, não há nada a apontar, talvez uma mecanização excessiva na interpretação a fazer lembrar por vezes Florence + The Machine, mas em palco não houve espaço para notas inesperadas (apenas uma) por não haver espaço para erros e falhas. Lorde em “Melodrama” fala dos seus dramas de ser demasiada jovem e das dificuldades em ‘conviver’ com a fama, mas Lorde conforta os jovens, coloca-se do lado deles, estabelecendo laços de energia extensíveis.

Ainda não refeitos do “Melodrama” de Lorde, grande parte do público mais jovem do primeiro dia do festival assentava arraiais em frente ao palco Seat. No ano em que o hip hop conquistou definitivamente o cartaz do NOS Primavera Sound, Tyler, The Creator era o primeiro nome a subir ao palco desta 7ª edição.

Tyler Gregory Okonma ladra e morde como nunca outro MC o fez. É o mais ameaçador, mais magnético e o mais promissor da nova geração que domina o hip hop. “Scum Fuck Flower Boy” é o mais recente disco de uma aventura iniciada em 2009 com assente no colectivo OFWGKTA e o disco “Bastard”. Tyler não é pacífico (nem na vida real), em palco a sua energia é viral, as suas rimas destilam ódio, violência e racismo. “Where This Flower Blooms” abre o palco às hostilidades que iriam percorrer alguns dos temas mais corrosivos de sua carreira discográfica como “911 / Mr. Lonely”, “Boredom” ou o viral “Okra”. O público, jovem, esteve à altura, diria mais, mais que à altura do concerto estabelecendo uma sinergia com o que se passava a dois metros de altura.

A noite aproximava-se do fim e a proposta para fechar a noite era nacional.  Moullinex, o alter ego de Luis Clara Gomes encerrava o palco Super Bock com “Hypersex” ao vivo.
Pela primeira vez um projecto nacional encerrava um palco principal do festival, o que para Moullinex, conforme nos confidenciou, foi uma prova de confiança na musica que que produz em Portugal.
Hypersex”, o último disco do patrão da Discotexas, já foi apresentado em vários locais e nas suas mais diversas formas, mas a sua vivência em palco é uma constante descoberta das canções que libertam a alma de preconceitos e dogmas. Sem convidados em palco mas com a presença sempre energética em palco de Ghettoven, Moullinex mostrou mais uma vez, e perante um grande palco, que é um dos maiores nomes da música nacional. Transformada numa autêntica pista de dança, as canções de “Hypersex”, e não só, constituíram um perfeito descarregar de energias depois de uma noite intensa com as profecias do pastor Tillman e do drama envolvente de Lorde.

Chegava assim ao fim o primeiro dia do NOS Primavera Sound 2018. Lorde mas também Father John Misty, Tyler, The Creator e Rhye a marcar uma noite de dramas, profecias, amores, traições e trans-sexualidade.
Como nota fica a referência da passagem pelo palco NOS de Jamie XX que não autorizou qualquer recolha de imagens.

Texto e reportagem: Sandra Pinho
Fotografias e entrevista: Paulo Homem de Melo

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