José James lança disco de tributo a Bill Withers

“Lean on me”. Terão três palavras tido alguma vez tanto poder, calor e coração num só fôlego? Um sentimento muito verdadeiro quando Bill Withers as cantou em 1972, tornando-se não só um hino da sua era, mas a assinatura do compositor e um presente eterno para o mundo. Quem não quer, hoje, ouvir estas palavras, à medida que as divisões e a retórica aumentam, enquanto a simples compreensão pelas relações humanas parece cada vez mais distante? Como sempre, este continua a ser o tempo de Withers. Por isso, no ano em que se celebra o 80.º aniversário do músico, o cantor, compositor e fã de longa data José James lança “Lean on Me”, um álbum de tributo que inclui 12 das canções mais poderosas de Withers, produzido por Don Was, presidente da Blue Note, e gravado no lendário Studio B da Capitol com uma banda de sonho: Pino Palladino (baixo), Kris Bowers (teclados), Brad Allen Williams (guitarra) e Nate Smith (bateria).

 

“Lean on Me” nasceu no final de 2017, como um projeto de concerto, mas o objetivo foi sempre gravar um álbum. James, que já criou tributos incríveis a Billie Holiday e John Coltrane, vestiu a pele de etnomusicólogo na escolha das canções, dedicando-se aos nove LPs de Withers, ao documentário “Still Bill”, de 2009, e a um número infinito de vídeos de YouTube para criar este disco.

Depois de uma década de incursões pelo mundo do jazz e experiências com o hip hop, o funk e a soul, James lançou em 2017 “Love in Time of Madness”, disco de r&b futurista onde a voz sedutora de James se tornou mais rica, quente e ressonante – a receita perfeita para, a partir daqui, interpretar a sabedoria humana de Withers. Deste novo álbum fazem parte canções como: “Grandma’s Hands”, um tema raro sobre o profundo amor familiar; “Ain’t No Sunshine”, uma perspetiva dolorosa sobre o amor romântico; “Use Me”, celebração da vulnerabilidade, contando com a participação de Takuya Kuroda nos arranjos de sopros; a balada agridoce “Hello Like Before”; ou “Lovely Day” que, como o próprio José James refere, “é o tipo de canção mais difícil de escrever – puro otimismo mas sem ser foleiro.” James conta com a voz de Lalah Hathaway nesta versão.

 

Withers retirou-se há décadas, mas a banda que José James reuniu no disco lembra-nos como ele ainda se mantém connosco. Parte disso é a familiaridade – esta formação é, maioritariamente, a mesma da estreia de James na Blue Note, “No Beginning No End” – mas não existem truques ou ginástica mental que explique o empenho que se sente em “Lean on Me”. “Não podes simplesmente cantar a canção”, diz James, “tens de acreditar em cada palavra. Com o Bill não existe espaço para não seres genuíno. Tens de estar confortável com o teu ser emocional, com os teus lados masculino e feminino, e deitar tudo isso cá para fora.” Mentalmente, James transportou as suas próprias histórias em Withers – desilusões passadas, novos amores, uma imagem da sua avó a dar-lhe um gelado – embora algumas dessas histórias fossem dolorosas. Interpretar o desespero de “Better Off Dead” é um trabalho doloroso, mas, do outro lado, temos “Lean on Me”: “Para evocar essa fé na humanidade tive de pôr de parte tudo o que se passa na sociedade”, diz James. E, assim, o trabalho de Withers continua a iluminar-nos.

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