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Glam Magazine

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Vodafone Paredes de Coura 2016… “Coura deixa cair paredes”

O Coura deixa cair paredes ”… Esta ideia pretende trazer algo diferente, várias mensagens alusivas à seiva cultural de Coura, que mostram uma identidade própria das pessoas de Coura e que lhes proporciona um orgulho próprio,  uma identidade própria, que tem que crescer desde as raízes, através da cultura que se víncula logo desde cedo com as crianças…. Seguindo a linha de pensamento do Presidente da Câmara de Paredes de Coura, o Festival segue  esse traço contínuo no desenvolvimento da Vila desde 1993.

VPC00.jpgSe o primeiro dia do Festival funciona como uma espécie de warm-up, o segundo íria-se revelar como o grande dia desta 24ª edição do Festival Vodafone Paredes de Coura. O regresso dos LCD Soundsystem marcaria de forma bem vincada esta edição do festival.

VPC01.jpgO calor brindava o final da tarde no 'Couraíso', como lhe chamam os apreciadores e seguidores que à 24 anos não perdem uma edição, e nada melhor que as baladas folk de Ryley Walker para suavizar o arranque deste segundo dia, que prometia muitas emoções. O álbum de 2015 “Primrose Green”, era o disco que o norte americano trazia na bagagem mais algumas canções novas do álbum “Golden Sings That Have Been Sung”, editado hoje, 19 de Agosto, figuraram do alinhamento do músico.

Na estrada do folk, encontramos no palco Vodafone.fm o rock FM de Joana Serrat. Uma voz doce que com um ritmo calmo, mas preciso, conquista o habitat natural da música. Singela e tímida, a simpatia musical de Joana estende-se do Coura ao mundo numa sonoridade assente numa guitarra e em canções curtas e eficazes.

O ambiente perfeito para trazer uma balada com o público conquistado, fazendo lembrar um 'walking throught the woods'. A cantora originária da Catalunha, Espanha apresentou um leque de canções que alternaram entre o seu registo de estreia de 2014, “Dear Great Canyon” e o recente “Cross the Verg”.

Regressando ao palco principal, Julien Ehrlich apresentava pela primeira vez em Portugal o seu projeto Whitney. A sua antiga banda, os Unknown Mortal Orchestra, tinham passado nesse palco no dia anterior. Assumindo voz e bateria, Julien sempre bem disposto e descontraído, apresentou um leque de canções que fazem parte do seu registo de estreia, o disco “Light Upon the Lake”, onde brilham temas como “Dave’s Song”, a abrir o concerto, “Light Upon the Lake” até “No Woman” que encerrou a estreia em Paredes de Coura. Um folk suave com a suavidade do rock bucólico e genuíno, transmitiu uma sonoridade de esperança e de fraternidade.

Bad legs… Os ‘grandes malucos´ de Braga chegavam ao palco Vodafone.fm e não foi preciso muito para incendiar um público liderado por Adolfo Luxúria Canibal. Logo cedo o público rendeu-se à música da banda que pediu um brinde à música. Com o albúm de estreia ainda fresco, as sonoridades rebeldes destes 4 jovens liderados pela loucura instalada de Fernando Fernandes. O rock e o blues musculados, espelhado em temas como “Black Bottle” e “Road Again” foram o balão de ensaio para a noite que se aproximava no palco principal do Festival.

De Nottingham chegavam de uma forma anárquica os Sleaford Mods, punk urbano e de intervenção inglesa em prol da classe de trabalhadores. Minimalistas em palco Jason Williamson e Andrew Robert Lindsay Fearn atacaram tudo e todos com a sua poesia agressiva assente em beats estrategicamente reproduzidos através do laptop. O duo.. em que Jason debita raiva e versos anárquicos e Andrew se limita a clicar no ‘enter e ficar a olhar’, traz uma perspectiva diferente da música de intervenção. “Key Market”, o seu mais recente disco é a prova dessa anarquia instalada na mente de Jason. A sua raiva em palco acabou por não encontrar no público a esperada revolta, provocando algum desinteresse por parte dos festivaleiros.

Seguindo a linha punk na sua vertente blues/rock, os Algiers mantinham a chama acesa no palco Vodafone.fm. O rock exprimental bem patente na banda de Franklin James Fisher, trazia energia ao festival com os seus ritmos desconcertados e únicos, numa mistura musical única onde as sonoridades afro comungam do cocktail musical apresentado pela banda. Formados em 2009, só em 2015 é que a banda lançou o seu trabalho de estreia, com um cartão de visita em 2012 com o tema “Blood”. A suavidade de “Remains” e a agressividade de "But She Was Not Flying" são a prova em palco desse mesmo cocktail musical.

John Dwyer e os seus Thee Oh Sees são fórmula ganha. Em 2014 foram a sensação no palco vodafone.fm e em 2016 são promovidos ao palco principal. Alguns segundos bastaram para que o ambiente de loucura, de moches, crowd-surfing se instalasse no habitat natural de música. Se no dia anterior algumas tímidas aventuras de crowd-surfing tinham surgido no concerto dos Orelha Negra, com Thee Oh Sees, a timidez passa a descaramento e as descargas energéticas da guitarra de John Dwyer são acompanhadas pelo dezenas de jovens literalmente a “cair dentro do fosso”.

Formados em 1997 em San Francisco, a sonoridade ímpar, psicadélica e desorganizada da banda transmitem a anarquia musical ao longo de 60 minutos, onde os álbuns “Floating Coffin” e “Drop” são príncipes numa noite em que os reis haviam ainda de chegar. "Toe Cutter - Thumb Buster", um dos temas mais marcantes do álbum de 2013 “Floating Coffin”, incendeia por completo o público presente ávido de ‘moches’

Os apreciadores incondicionais de LCD Soundsystem estavam exaustos de tanto esperar, mas ontem ficaram sem fôlego, sim eles regressaram a Paredes de Coura passados 13 anos, dia em que atuaram após os Motorhead e no afterhours. Programado e metódico James Murphy foi Rei e Senhor numa noite em que 24.000 pessoas vibraram com o regresso da banda de Nova Iorque.

Ao som de “Losing My Edge”, 14 anos depois da sua edição numa versão muito própria foi o suficiente para conquistar o púbico que estava ali, em Paredes de Coura para assistir ao regresso de uma banda que tinha terminado em 2011 de uma forma que deixou milhares de fãs incorformados.

Rock, Punk, Disco, electrónica, intervenção, tudo pode ser encontrado na musica dos LCD. Num dia anárquico, mas nada como a anarquia controlada de James Murphy para elevar o concerto da sua banda a concerto do ano nos festivais de 2016. Tudo o que o público queria ouvir esteve em palco, desde o clássico “Daft Punk Is Playing at My House”, ao melodramático “New York, I Love You But You're Bringing Me Down” passando pelo punk new wave de “Drunk Girls”. “All my friends” do álbum de 2007 “Sound of Silver” fechava em apoteose os 90 minutos de concerto em Paredes de Coura.

 

Encerrava assim a segunda noite do festival num Coura sem Paredes mas com portas abertas para a música e para a aventura do regresso de James Murphy à musica.

 

Texto de Sandra Pinho e fotografias de Paulo Homem de Melo